Bagagem de Escrita: “Aralsky!” – Parte I Uzbequistão – 2015
Um letreiro já decrépito com um peixe enferrujado anuncia que estou a chegar a Moinaq, uma pequena localidade que foi, outrora, a única cidade portuária do Uzbequistão, junto às margens do mar do Aral. Os bons tempos em que neste centro urbano de dezenas de milhares de habitantes viviam com alguma prosperidade do negócio piscícola começaram a mudar a partir do momento em que o governo soviético desviou as águas dos rios que o alimentavam para irrigar a produção de algodão. As águas deste mar interior começariam a minguar até se tornar num dos maiores atentados ecológicos do nosso planeta, já que hoje apenas mantém menos de 5% do que já foi em tempos passados.
Alagado em suor, procuro um alojamento em conta que me permita descansar depois de uma viagem de algumas centenas de quilómetros, vindo de Khiva. Com muito custo, dou com a porta certa após uma mão cheia de tentativas falhadas. Aquele espaço não é hotel nenhum, mas sim uma casa familiar em que os proprietários alugavam o chão da sala de estar, em cima de uma grossa carpete que serviria de colchão ortopédico para o corpo de quem aqui chegasse nas mesmas circunstâncias que eu. A casa de banho era um claro exemplo da “casinha” que se usava no nosso país há quase um século atrás, uma pequena divisão de madeira no exterior cuja única observação que farei é referir que tinha um buraco no chão.
Mas a minha fisgada era mesmo ir ver a enorme cratera, sem horizonte à vista, onde há umas gerações atrás havia o mar que era a fonte de prosperidade para esta população. O problema é que o dia já estava a findar, o sol já se tinha posto e eu sabia que o tempo com alguma luz se iria encurtar a uma velocidade assustadora, pelo que urgia chegar lá em tempo útil. Desprovido de mapas e sem ideia de onde pudesse ficar, pedi a um rapaz para me indicar o destino pretendido, mas ele não compreendia nada do que lhe tentava explicar enquanto recorria ao inglês mais básico que conseguia. Sorria, e acenava que sim, mas respostas não havia. Desesperado, peguei num pau e desenhei no solo arenoso as ondas do mar, e um quadrado a fazer de barco, ao que ele exclamou algo parecido com “Aralsky!”
Segui até um pequeno cume, e eis que me confronto com um interminável deserto escavado no solo onde jazia meia dúzia de barcos encalhados por entre areia e vegetação, como se fossem restos que ficassem numa pia depois de abrir o ralo de um lava loiça. Fotografei com a pouca luz que tinha, mas aquele cemitério de ferro velho seduziu-me tanto que não resisti a descer aquela ribanceira para ir até lá e ver de perto. Munido apenas da fraca lanterna do telemóvel, fui tateando o caminho íngreme com cuidado redobrado, e mesmo assim ainda fui ao chão algumas vezes.
Senti-me a vaguear por um cemitério de ferro velho e imaginava como teriam sido aquelas embarcações em vida, no seu ofício da pesca, ou também do turismo. Tanto se viveu naquelas carcaças que estavam agora ali abandonadas, à semelhança da réstia do mar que foi o mundo delas.
A escuridão e o silêncio foram quebrados quando duas lanternas perseguem o meu vulto, procurando encontrar-me enquanto três vozes me tentam falar descoordenadamente. Estava só, não fazia ideia de quem seria aquela hora, e não me podia esquecer que o país em que me encontrava era uma ditadura onde as liberdades nem uma miragem são das do mundo ocidental.
Procurei fazer que os ignorava, mas uma dessas lanternas também desceu a ravina e veio ao meu encontro. (continua)


