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bagagem d’escrita: A cidade-espetáculo EUA – 2009

21 de às 10h30
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José Luís santos

Diz o velho ditado oriental que “se o céu te atira uma tâmara, abre a boca”. Foi isso que me veio à cabeça quando dava aulas na ilha de São Miguel, nos Açores, e alguém me telefona a dizer que havia uma promoção da companhia aérea deste arquipélago para os Estados Unidos da América no mês de maio que se avizinhava. Poucas horas depois já tinha um bilhete na mão com destino a Boston por 138,33€.
O tempo que tinha resumia-se a poucos dias de viagem, pois estava em período letivo, mas levava comigo a ideia fixa de conhecer Nova Iorque, e de a viver sofregamente. Não me demorei nessa cidade que me recebeu do outro lado do Atlântico, pois apanhei um autocarro noturno de uma companhia chinesa, pensando que iria repousar nas três centenas e meio de quilómetros ao longo desse caminho. Não podia estar mais enganado, já que a estrada estava em tão más condições que os solavancos me abanavam bem mais do que era suposto.
Pouco passava das cinco da manhã quando acordo uma vez mais, mas agora com uma voz a dar a indicação de saída. Eu não via estação rodoviária nenhuma, apenas uma rua secundária mal iluminada. Não queria acreditar no que estava a ouvir, mas pela insistência do motorista chinês percebi que não tinha alternativa.
Foi neste momento que percebi o porquê de se dizer que esta é a cidade que nunca dorme. Havia um movimento tímido, mas perpétuo de gente a circular, como se Nova Iorque se estivesse a espreguiçar para dar lugar ao ambiente frenético que a caracteriza. Enquanto caminhava pelas ruas onde ainda reinava alguma paz, vinha-me à cabeça o início do filme “O Homem da Câmara de Filmar”, realizado em 1929 por Dziga Vertov. Quando chego à Quinta Avenida, o ritmo acelera. A ideia de multidão começa a formar-se, o barulho dos automóveis desdobra-se em vários múltiplos, o sol ilumina agora todo este cenário com vigor. A cidade está a acordar.
Ainda fui a tempo de me dar ao luxo de me deitar no meio da avenida mor para fotografar a imponência do Empire State Building a desaparecer por entre o nevoeiro que envolvia os seus pisos mais altaneiros. Num momento de pausa para a loucura sensorial que se avizinhava, refugiei-me no parque Madison, contemplando a paz que por ali ainda se fazia sentir, partilhando o meu pequeno-almoço com dois esquilos gulosos e interesseiros que vieram ao meu encontro.
O primeiro dia é passado numa autêntica correria, tal era a ânsia de ver, fazer, conhecer e fotografar, que nem houve tempo para digerir o que absorvia. A sobremesa desta sumptuosa refeição seria servida à noite, quando as luzes se acendem e o esplendor assume-se com toda a pujança. A Time Square é para onde tudo converge. É, por si, um mundo à parte dentro desta galáxia que nos arregala os sentidos. Monges budistas, um homem mascarado de Batman a pedalar o seu “batmobile” decorado a preceito, cristãos fanáticos empunhando cartazes a alertar-nos para nos redimirmos dos pecados pois o julgamento final está próximo, limusines, os imprescindíveis táxis amarelos e os carros de polícia desfilam na sua maior naturalidade diante dos meus olhos. Esta é a vida diária, mas para mim é um festim, como se fosse uma criança da aldeia que visita pela primeira vez a capital.
Encontro-me agora no cimo de um palanque a vislumbrar tudo isto a acontecer à minha frente, como se de uma encenação se tratasse num palco iluminado pela fortíssima iluminação dos gigantescos reclames luminosos que trepam pelos arranha-céus. Tudo isto era cinematográfico, e transmitido em direto, e fazia com que Nova Iorque fosse o que ainda é hoje para mim, a cidade-espetáculo para a qual me ofereceram um bilhete.

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