Bagagem d’escrita: Gula, Misericórdia e Morte Índia – 2017
Desço até ao centro de Pangim, bem no coração do que foi outrora o coração do império português na Índia, em Goa. Deixo-me levar pela fome, ou pela gula, e entro numa pastelaria cujo nome é, precisamente, “A Pastelaria”. Escolhemos sempre aquilo que nos toca, ou que nos diz respeito. Aqui, foram as duas coisas. Enquanto como um cup cake de manga e um “bolo de veludo vermelho”, empurrado com um sumo de kokam (um fruto parecido com o mangostão), ponho-me à conversa com o proprietário, perguntando-lhe o porquê do nome do estabelecimento. Este indiano, de fé islâmica, nem é desta região, chegou aqui há uns anos e adquiriu este negócio, que já era de há longa data conhecido na cidade, optando por não lhe mudar o nome. Não será estranho este caso, uma vez que muitas das lojas desta terra ostentam os nomes dos que aqui povoaram este território por dezenas ou mesmo centenas de anos.
Nas entradas de alguns prédios, um pequeno letreiro indica que ali mora alguém que dá aulas de português, o que me faz acreditar que ainda há interesse por estas bandas em se falar a nossa língua. Soube que na universidade local ainda se ensina a língua de Camões, fruto do trabalho da Fundação Oriente. Passo pela barbearia de António Lobo, o espaço que se resume a uma casa colonial portuguesa onde um indiano corta o cabelo a alguém que parece um amigo de longa data. Acenam-me, sorridentemente, com aquela expressão de quem se presta a ser fotografado, como se me dissessem “bem-vindo” a um ugar que deverão ter compreendido que era de herança comum.
Mais à frente, passo pela Assistência de Goa, a denominada “Clínica dos pobres”, pertencente às Missionárias da Caridade, da obra da Madre Teresa de Calcutá. Aqui dão-se consultas gratuitas aos adultos mais desfavorecidos das 09:00 às 10:30, de segunda a sexta, enquanto que as crianças têm lugar marcado às segundas, quartas e sextas das 10:30 ao meio dia. À porta, uma mulher da casta mais baixa da sociedade, os “dalit”, a quem chamam “intocáveis” por quase não terem direitos e estarem, na sua maioria, condenados desde a nascença pelo apelido que indica uma proveniência tida como sub-humana, espera pacientemente pela sua vez de ser atendida, ou melhor, de sentir que alguém se preocupa com ela. Nasceu sob o signo do infortúnio de ser remetida para as funções que os outros não querem, como se de sobras se tratassem. Num país onde a miséria é omnipresente, esta e outras associações são uma gota de água num oceano, mas fazem toda a diferença para um mar de gente. Em Goa, a pobreza não é alarmante, sendo até um dos estados indianos em que as desigualdades não são as mais gritantes.
Procuro a igreja de Santa Inês, não pelo edifício em si, mas por albergar ao seu lado o principal cemitério português. Abro um enorme portão de ferro, muito perro, e entro numa autêntica selva onde campas e jazigos emergem de um manto verde como icebergs num oceano. Todo aquele espaço, na zona mais antiga desta cidade dos mortos, encontra-se envolto numa vegetação que aqui grassa muito abundantemente e que, como me disseram, apenas é desbastada a um de novembro, dia dos finados.
Ouve-se a eucaristia, que ecoa pelas traseiras desta igreja católica enquanto me detenho a olhar para os inúmeros nomes portugueses cravados numa campa com uma face indiana. É aqui que se sente o que foi a história, a miscigenação, o cruzamento de séculos de portugueses com asiáticos, a quem deram os genes e os nomes próprios e apelidos. Aqui jaz não só aqueles que aqui viveram como também aquilo que foi, outrora, um império.


