Bagagem d’escrita: Ver Coimbra por um ecrã num mundo à parte Albânia-2005
Eu e Andrea, um jovem advogado milanês que tinha conhecido na Sérvia, queríamos sair à boleia de Progradec, uma vila na Albânia profunda, rumo a Tirana. Tive tempo de ir observando a vida quotidiana desta gente. A rua principal tinha tanto de buracos como alcatrão. Mas isso não impedia os veículos de passarem em excesso de velocidade, quase atropelando quem lá passava a pé ou de bicicleta. Esse era o local predileto das crianças para brincar. Levavam uma vida despreocupada, alheios a qualquer norma social pois corriam, saltavam e gritavam só com uma tanga a tapar-lhes o corpo. Olhei para um edifício velho e bastante degradado para onde entravam e saíam constantemente e pensei que fosse a sua cabana. Um quarto de hora depois, a mãe de um deles vem à janela chamá-lo com voz bem grossa e impositiva. Conclui que era afinal a sua casa.
Junto a mim, estava uma senhora vestida com uma roupa que me parecia do início do século passado. Dava para pensar que os novos ventos da história, o progresso ou a tecnologia ainda não tinham passado por aqui. Cruzava por mim também gente a puxar carrinhos com materiais diversos, como na Idade Média.
Quando estávamos quase a desesperar, passam os dois jovens albaneses que tínhamos conhecido horas antes. Trataram de arranjar-nos lugar numa carrinha que estava prestes a partir e a um preço decente. Entrámos e tentámos acomodar-nos dentro do possível. A Nissan Vanette estava cheia, e iríamos fazer uns duzentos e tal quilómetros entalados, mas era o que tínhamos.
Praticamente ninguém falava nada além de albanês, apesar de responderem a pequenos gestos simpáticos que esboçávamos. A meio da viagem, o veículo parou junto a um café. Entrámos para beber algo e enquanto esticava as pernas ao passear nesse espaço, deparo-me com uma porta aberta para o nada, ou seja, era como se fizesse de parede movível e serviria para atirar o lixo para o quintal traseiro, ou para a ribeira que aí passava. Se estivesse distraído e “entrasse”, cairia de um segundo andar. Lembrei-me de ir depois dar uma volta por essa zona, mas advertiram-me para recuar porque havia aí lobos.
Pelo meio, fiquei a saber que muitos albaneses falavam italiano porque, imagine-se, o aprenderam a ver as telenovelas dobradas nessa língua. A partir daí fomos a conversar até Tirana, onde chegaríamos já de noite.
A minha ideia, para poupar uns trocos, pois andava quase sem dinheiro, era tentar arranjar dormida na embaixada italiana, mas Andrea não achou boa ideia. Procurámos o sítio mais barato e tivemos de pagar 12 euros. O albanês macarrónico do meu colega deu para falar com o porteiro e ficámos a saber, estupefactos, que trabalhava no Instituto de Física Nuclear da capital e estava ali a fazer pela vida em horário pós-laboral.
Instalei-me num quarto com televisor, coisa que nunca me tinha acontecido nesta viagem pelos Balcãs. Lembrei-me de ligar o aparelho e saber o que esta gente via no noticiário. A primeira imagem que aparece era de um grande incêndio, um clima dantesco alimentado pelo pânico de gente que lutava para salvar os seus pertences das chamas que as atacavam sem dó nem piedade. Aí pensei que por aqui também havia este tipo de desgraças, mas o meu raciocínio ficou cortado a meio quando apareceu uma indicação no canto inferior direito do ecrã a dizer “Portogália”. Nem me passaria pela cabeça de que estava a ver imagens dos arredores de Coimbra.
Que estranha forma de me sentir em casa.


