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Opinião: A árvore e a floresta III. 2574

12 de às 09h42
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Há cerca de 35 atrás, com um pouco menos de metade da idade que tenho hoje, num debate sobre o planeamento na região envolvente de Coimbra, tive a irresponsável ousadia de afirmar que era necessário urbanizar a parte da cidade a oeste da Estação Velha, a área que confrontava com os Campos do Bolão. Caíu o Carmo e a Trindade: “— o homem está louco, urbanizar os melhores solos de Portugal, como é que alguém pode pensar uma coisa dessas!”. Claro está que, para os meus interlocutores da altura, urbanizar significava só construir uma caterva de prédios wild duck style e o espaço público mínimo, o estritamente necessário para os servir. E, no reverso, para mim o planeamento, que eles defendiam acerrimamente, significava só desenhar uns riscos a traço grosso na escala 1-10000 ou 1-25000, que definiam zonamentos abstractos e o respectivo modelo de uso dos solos: densidade construtiva x, y, e z; reserva agrícola; reserva ecológica; áreas non ædificandi; ou seja, nada de realmente palpável, nada com capacidade para concretizar espaço minimamente organizado, nem no que respeita ao edificado denso, nem no que respeita à paisagem mais vegetal.
O que se passou a seguir está à vista, uma zona completamente desregrada, onde quase tudo foi permitido, desde que se construísse poucochinho, aqui e acolá, com jeitinho para não se notar que se construíu. O que lá foi sendo construído resultou num patchwork absurdo, numa área difícil de compreender, inconcebível como acesso a uma mata nacional com o simbolismo identitário do Choupal e, sobretudo, inaceitável como porta de entrada numa cidade minimamente civilizada, já nem sequer me atrevo a dizer europeia. Por isso, hoje ouso voltar a pensar que as coisas talvez não tivessem mudado assim tanto.
E, contudo, mudaram. Dois sinais, ténues ainda, dessa mudança:
1. Um plano urbano para a área envolvente da nova Estação de Coimbra Central, elaborado pelo arquitecto e urbanista catalão Joan Busquets, na sequência de um outro que ele já tinha desenvolvido há doze anos atrás, numa altura em que a Metro Mondego estava ainda pensada para funcionar com eléctricos modernos, urbanos e suburbanos, em que se pensava na alta velocidade em bitola internacional, a passar exclusivamente por Coimbra, entrando por Santa Clara num túnel que emergia só perto da actual Estação Velha e estabilizava cerca de 600 metros a norte, junto ao Loreto. Tal como esse plano, este vem concretizar a cidade, tem como core uma estação ferroviária, europeia por natureza, uma estação que não pode cair no meio do nada, como se fosse um shopping mall dos subúrbios norte-americanos. Consequentemente, o plano prevê também a extensão de centro da cidade até ela. Concretizando e aprofundando o desenho, pertence a uma mais recente geração de planos, que vem fazendo o seu caminho por essa Europa fora, sobretudo em Espanha e em Itália, são os chamados projectos urbanos que pressupõem, entre outras coisas, aprofundamento e garantia da qualidade das arquitecturas envolvidas, usos diversificados e pluralidade de investimentos, públicos e privados.
2 – Este plano, com a total revisão do projecto urbano da envolvente, vem anular o que estava previsto antes e aprovado pelo executivo anterior, que era uma ligeiríssima lambidela da “estação” de Coimbra B. Ficávamos com uma estação suburbana, sem qualquer dignidade para entrar na rede de alta velocidade europeia, mesmo que só com alguns comboios por dia. Isso leva-me a crer que o actual executivo se vai empenhar seriamente na aprovação e na gestão deste novo plano, que traz, em conjunto com os melhoramentos previstos para a mobilidade, um potencial enorme de transformação e requalificação do espaço urbano de Coimbra.
2574 parece ser um número como outro qualquer. E é, é o número que foi anunciado como representando a quantidade de árvores a plantar no Plano Anual de Plantações da Câmara Municipal de Coimbra. Mas em espaço urbano, e penso que, por enquanto, Coimbra ainda é um espaço urbano, a plantação das árvores está longe de ser (só) uma questão de quantidade. É sobretudo uma questão de qualidade, e essa qualidade não significa só quantas, significa como, quando e com que propósito. O espaço urbano é o espaço protocolado e organizado no quadro de vida das pessoas que o habitam e que o visitam, não é tabula rasa para plantações florestais. Daí os planos como o de Joan Busquets, que põe os edifícios onde eles são precisos e onde eles remetem para a densidade e para a escala urbana, e põe as árvores e restantes elementos vegetais também onde eles são mais precisos para a sã convivência e continuidade de outros parques contíguos. Se isto for entendido como tal, estaremos seguramente distantes daquele debate no qual participei há cerca de 35 anos.

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