Opinião: A Doença Holandesa
A Doença Holandesa, um fenómeno económico resultante da exportação em larga escala de produtos básicos como petróleo e gás natural, pode ter implicações adversas para setores como a manufatura e a agricultura, tornando-os menos competitivos a nível global. Este termo foi cunhado na década de 1970, quando a Holanda descobriu grandes reservas de gás natural, levando a uma valorização significativa da sua moeda local e desafios para outras indústrias. Com o tempo, o crescimento do mercado de gás e a redução da economia de exportação levaram os Países Baixos a enfrentar uma recessão.
Esta dinâmica não é exclusiva dos Países Baixos e tem sido observada em diversas nações em desenvolvimento, como a Venezuela (petróleo), Angola (diamantes, petróleo) e a República Democrática do Congo (diamantes).
No mês passado, a jornalista do New York Times, Patricia Cohen, apresentou um interessantíssimo artigo intitulado “Crise e resgate: o ciclo tortuoso que aflige nações endividadas”. Uma análise profunda que aborda a persistente crise económica enfrentada pela maioria das nações africanas. No Gana, país da África Ocidental, que em 2022 recorreu pela 17ª vez ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a crise foi exacerbada por diversos fatores e agudizada pela pandemia de Covid-19 e pela guerra na Ucrânia. Segundo Stephane Roudet, chefe da missão do FMI no Gana, a atual crise é muito mais profunda do que as experimentadas no passado.
Diante de tantas intervenções do FMI nas últimas quatro décadas, surge a questão: o que torna esta intervenção diferente das anteriores?
O volume da dívida dos países em desenvolvimento, agora estimado em 200 mil milhões de dólares, demonstra que o modelo atual não é sustentável. Países como o Gana, à semelhança de outros em desenvolvimento, contraíram empréstimos com baixas taxas de juro para melhorar sistemas de educação, saúde e infraestrutura. Contudo, o aumento da inflação levou os bancos ocidentais a elevar as taxas de juro de referência, aumentado assim o valor da divida para valores incomportáveis, resultando na incapacidade desses países em cumprir com os pagamentos. Além disso, o aumento dos preços dos bens importados torna insustentável a situação tanto para os governos quanto para as suas populações.
É essencial também referir que os índices significativos de corrupção e a má administração governamental são elementos fundamentais neste ciclo persistente que afeta profundamente os países subdesenvolvidos.
Não será, por certo, uma tarefa fácil mas torna-se imperativo que as instituições globais se empenhem em encontrar um modelo mais equitativo e, sobretudo, sustentável. Isso permitiria aos chamados países em desenvolvimento livrarem-se desta maldição holandesa que tanto os assola.


