Opinião – A educação mudou de referencial
Como se lida com um filho que verifica na net a veracidade do que dizemos? Como se lida com um filho que de modo permanente contraria os nossos referenciais? Como lidamos com a presença de um ser que é ele e o seu séquito? Como respondemos a uma opinião envolvida de “likes”? Tudo isto são alterações do padrão social que transportam pessoas para o patamar de mercadoria. Vendem-se opiniões, vendem-se imagens do corpo, contabilizam-se apoios e seguidores mesmo que signifique falta de decoro, ausência de filtros. Estes são os filhos que vivem sem empregos, que se projectam em redes que pagam pela presença de apoiantes. A razão ou a reflexão, não carecem de espaço porque o posicionamento surge da minudência. Não importa as cheias que mataram à fome, milhões de sudaneses, nos últimos dias. Não tem imprensa a tentativa vã de António Guterres de pedir ajuda para este cenário dantesco. Não importa a persistência do holiganismo na europa. Um mundo de construtores de conteúdos digitais agiganta-se e invade as ruas, as conversas, as hierarquias do trabalho.
Muitos dos críticos da estrutura montada para a pandemia, confundem agora a boçalidade do que se escreve contra a saúde a partir de uma social light, com aquilo que são os problemas estruturais do SNS. Os problemas do SNS são de gestão, de estratégia, de logística. Quando preferimos meia dúzia de jovens médicos para poupar salários de gente experiente, gastamos milhões em exames complementares de medicina defensiva. Quando não verificamos a eficiência do trabalho que contratamos damos força à preguiça, ao desmazelo. Quando temos equipas que sistematicamente se recusam a construir soluções devemos substituir. Reduzir horas extra a quem não produz, ou comparar horários com tarefas realizadas, é gestão eficiente.
A gestão tem de ter prémios e tem de ter capacidade de despedimento. Tudo justificado e devidamente aferido por rigorosos critérios. Claro que o prémio viola padrões dos antiliberais. Salário igual, sem destacar esforço, simpatia, produtividade, é um incentivo à rebaldaria, ao absentismo. Por isso no SNS há um programa adicional (pago pela produção) que nunca deveria ser realizado por quem não produz nas rotinas, por quem não garante eficiência no serviço correspondente ao seu horário normal. O mérito desaparece para ser um modo de benefício aos amigos, aos camaradas.
O que está errado em saúde não são pessoas esporádicas, não são experiências negativas. Aliás o bom é termos um excelente SNS para as doenças graves. Ontem um amigo falava da irmã que teve uma amnésia global transitória. No dia seguinte tinha análises, punções lombares, TAC, angio TAC, tudo realizado, permitindo uma estratégia. Uma eficiência que a maioria dos países não tem, e quase de graça. O meu mano teve um enfarte e dez horas depois estava tratado, com stent colocado e quase gratuito. O grave é muito bem tratado no SNS. A resposta dos profissionais é extraordinária, apesar de se processar na maior falta de dignidade e em condições inapropriadas. Isso é da gestão.
Por tudo isto, e muito mais, o SNS carece de melhor gestão e de gente competente para o fazer brilhar.
Hoje estamos perante uma violenta construção de narcisismos que confunde o eu humilde, o eu emocional, com o espaço público, com a defesa da garantia distributiva de um mínimo para todos. As lutas mais violentas são das particularidades, dos marcos da diferença, chegando o próprio SNS a ter lista de espera oncológica, mas a esgotar orçamentos para situações que raiam fronteiras patológicas, situações que são sobretudo “egoexigentes”.
Confrontam-se dois mundos não forçosamente etários, mas sobretudo geracionais. Expliquemos: há idosos que estão integrados neste ciber-eu. Há jovens info-excluídos. Como sempre, a excepção não forma a regra.
A estratégia pandémica foi um discurso político que envolveu o SNS mas isso nunca pode culpabilizar os seus funcionários. Misturar a revolta sobre o que foi a estratégia não pode estar colado ao apoio de uma social light que afirma negligência aos seus superiores hierárquicos. Pode ter razão. Pode estar a apontar ao alvo certo. Mas nunca se lava roupa suja na praça pública. Nunca o cavalheirismo, a sofisticação, podem ser substituídos pela boçalidade ou a ignomínia. O ciber-eu macula e rasga todo o SNS. Já não é “aquele”, são os médicos, os profissionais de saúde, todos em água porca.


