Opinião: A essência da Política
Em Mundo do Avesso, de A Garota Não, há uma voz de fundo que diz “Todos os políticos – e, aliás, a única motivação, ao longo da minha vida, que encontro para a atividade política… – a única motivação que encontro é essa: a vaidade, que é uma das caraterísticas humanas”.
Vem isto a propósito do arranque do “novo ano político”.
Passado agosto e cumprido o calendário de iniciativas que marcam a rentrée política, o Parlamento iniciará, esta semana, a segunda sessão legislativa da XV legislatura.
Em redor, e como habitualmente, no espaço de comentário político, discutem-se aqueles que serão os problemas que, nos próximos meses, ocuparão a agenda. Destaca-se que, num contexto multicrise, a incerteza é a nota dominante. Fala-se da guerra na Ucrânia, das crises de refugiados e dos seus efeitos no país; da política de habitação, da falta de casas e das decisões do BCE sobre taxas de juro; da inflação, dos preços do cabaz alimentar, dos baixos salários e da política de impostos; do SNS, da escola pública e dos tribunais. Pelo meio, pensa-se nas eleições para a Assembleia Legislativa da Madeira, para o Parlamento Europeu e nos eventuais candidatos a todas as outras; disseca-se a relação e os conflitos entre instituições; alguém recorda, o significado do aniversário dos 50 anos do 25 de abril.
Perante a dificuldade dos atuais problemas políticos e o seu tremendo impacto na vida dos portugueses, que os deputados à Assembleia da República prometeram representar, exige-se que a Política seja bem mais do que um exercício de vaidade (nas suas várias declinações, por exemplo, de confronto de poderes).
A essência da Política sempre radicou no idealismo; acredito que deve radicar num “idealismo pragmático”, de uma vida melhor para todos. Quando nos afastamos dessa essência, afastamo-nos das pessoas. Pior, afastamos as pessoas da Política e alimentamos o cinismo de que vivem os extremismos.
É, por isso, importante que no início de um “novo ano político” elevemos a fasquia. Para todos.
Relativamente ao regresso à essência da Política, mas também à forma como a vivemos.
Na dignidade do debate, em primeiro lugar. Porque é preciso aprender a discordar sem agredir ou insultar. Porque é preciso encontrar respostas para a complexidade da vida atual e elas não se encontram na demagogia e no populismo.
Na intransigência nos princípios éticos. Porque a qualidade da democracia e a confiança dos cidadãos nas instituições dependem, em absoluto, da conduta ética irrepreensível dos titulares de cargos públicos. Porque os partidos políticos existem para servir as pessoas e, com essa finalidade, nenhum conflito de interesses pode existir.
Mas também no respeito pelas regras institucionais. Porque beliscar os papéis e responsabilidades de cada entidade mina a confiança coletiva. Porque é insuportável perceber que o dever de reserva, do sigilo de justiça ao segredo do Conselho de Estado, é desonrado com ligeireza.
Acima de tudo, na clarividência de entender que, cada vez mais, a sociedade civil e os cidadãos, informados e exigentes, valorizam os entendimentos e querem ser envolvidos na construção, implementação e acompanhamento das políticas públicas e isso traz exigências acrescidas.
Na maioria dos países, a democracia é o quadro no qual se regulam os conflitos e se ultrapassam as divergências. A defesa da democracia exige que se preserve a essência da Política: o seu foco são os outros, não o umbigo de cada um.


