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Opinião: A formiga não pode carregar o leão às costas

22 de às 15h51
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O valor total dos meus rendimentos consiste na soma de todos os salários que recebo, todas as rendas que me pagam por aluguéis, da venda de produtos que fabrico, dos alugueres que fizer de casas, quartos ou carros. Também posso ter um terreno que produz bens alimentares ou outros e a sua venda junta-se ao meu PIB. O meu rendimento anual é o meu Produto Interno Bruto. Mas agora vamos tirar daqui os salários de empregada, a escola dos filhos, a gasolina, os seguros, a água, a luz, as comunicações, as taxas aos bancos, os impostos ao Estado e temos o valor que fica para brilhar, para as festas, para investir.
No caso português 2,6 milhões de 10,8 milhões de habitantes são idosos. 3,4 milhões são trabalhadores por conta de outrem. Há 4,1 milhões de inactivos entre baixas, deficientes, idosos, domésticos, crianças ( 1,4 milhões). Assim se constrói o PIB, com os que trabalham, os impostos que pagamos e muito do que se descreveu no início. Os funcionários da máquina do Estado Central são mais de meio milhão, e na administração pública local e regional estão 160 mil. Além destes há os das empresas de capital do Estado, com gestão “privada”. Eles, na realidade, recebem dinheiro do PIB e não são contribuintes a não ser que consumam muito IVA, paguem muito IMI ou sejam empreendedores agrícolas, lojistas, vendedores, etc. O salário dos Funcionários sai do bolo que se constrói dos impostos e daquilo que o Estado deveria produzir ou vender.
Se o dinheiro não chegar ao fim do ano, posso emitir títulos de dívida que os amigos compram se confiarem. A confiança está controlada pelas agências de rating, ou pelos vizinhos no bairro das formigas. É o caso dos Títulos do Tesouro do Estado. Isto, para o meu PIB, tem agora um custo, que é o juro que pagarei ao meu cliente. Tem a vantagem de me disponibilizar capital em tempo útil que me pode fazer ganhar dinheiro, se bem utilizado. Tem o custo de ter de pagar juros sobre o valor que me adianta.
Portugal, sob o ruído da TAP e do galambismo teve um ataque ao bolso das poupanças reduzindo a taxa de juro dos Títulos de Tesouro de 3,5 para 2,5 %. Mais, converteu numa dificuldade a libertação dos títulos por herdeiros, ou seja, atacou a liquidez das famílias. Num país muito estranho onde a pobreza é das mais importantes da europa, o povo não liga às questões financeiras e paga. Paga o que não pagam outros europeus por um carro, por uma casa, por taxas de luz e água. Há até quem não repare que os combustíveis estão a preços mais baixos que antes da guerra da Ucrânia. Portugal é cego e gosta de ser enganado. Quando a Banca cheia de lucros pede que acabem os produtos de poupança do Estado não se ouvem gritos nas ruas. Talvez porque os portugueses coloquem mais dinheiro na raspadinha que nas poupanças. 1,5 mil milhões de euros são só para raspar encostados às mesas dos cafés. Outro tanto é para jogar no Euromilhões e no totoloto. O desinteresse na poupança vem de uma mentalidade pobre que não se importa de conseguir reformas abaixo de 500 euros mensais.
Esta realidade que nos coloca nas mãos de João Moreira Rato e outros gestores que detestam os contribuintes, amam os grandes investidores e nunca valorizam o esforço da formiga, preocupa-me há muitos anos. Houve dezenas de prémios Nobel da economia que aconselhavam uma aposta no microcrédito, um crédito para o empreendedor pequeno e cuidadoso, que defendiam a libertação de dinheiro para a iniciativa das pequenas e médias empresas. A construção da sociedade sem soluços, sem crises, obriga a uma estrutura onde a poupança serve de almofada e garante a estabilidade das famílias. O mundo não pode ser apenas dos predadores como parece ser o novo Estado que dilapida a saúde, a banca, o ensino, que nos consome os direitos básicos como a energia, a água, e a comunicação. A formiga não pode carregar o leão às costas. O PIB não comporta devaneios extravagantes, subidas inesperadas de taxas, inflação nos alimentos que ninguém consegue explicar. Se o valor total do PIB não comporta os gastos da família temos de nos vender aos juros agiotas dos predadores. Esse cenário já nos colocou nas garras do FMI mais que duas vezes.

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