Opinião: A herança judaica de Coimbra e o turismo
Coimbra tem de assumir de forma muito afirmativa, em termos de estratégia turística, o extraordinário legado judaico, material e imaterial, que possui. Estão identificados, estudados e documentados, a localização e organização da judiaria velha e da judiaria nova, os acontecimentos históricos que levaram ao estabelecimento das comunidades judaicas na cidade, que acompanharam, de resto, os principais acontecimentos históricos que levaram à diáspora judaica ao longo dos séculos no nosso país e no mundo, assim como os bens materiais, poucos, mas muito raros, por isso de um inegável valor. História e bens materiais (vestígios arqueológicos, objetos religiosos, objetos do quotidiano e documentos/livros) são para os judeus, nomeadamente para os descendentes de judeus portugueses ou Sefarditas (os originários da Península Ibérica), um atrativo imenso, motivos de culto e fonte de grande emoção. Por isso, estão disponíveis para viajar, para conhecer, para ver, para sentir a sua história, origem, memória dos seus antepassados, religião, numa palavra a sua cultura! Não se pense que este mercado turístico se circunscreve aos turistas provenientes de Israel, como os grupos organizados que vemos de visita à nossa cidade. A estruturação de um consolidado produto turístico à volta da herança judaica será fonte de atração de muitos outros turistas judeus, ou de origem judaica, espalhados um pouco por todo o mundo, dada, precisamente, a dimensão da já referida diáspora, sendo os que não vivem em Israel aqueles que mais procuram e anseiam conhecer as suas origens. Aqui com particular incidência na América do Norte e na América Latina, não só pelo grande número de judaico descendentes, mas também pela forte capacidade económica que facilmente lhes permite viagens e estadias longas.
A informação fundamental da história dos judeus em Coimbra está ao alcance de todos nós na excelente e bem sucedida exposição que há já alguns meses está patente no Edifício da Inquisição (ao Pátio da Inquisição, que lugar mais indicado, mais simbólico, para o efeito?). “Judeus de Coimbra | Tolerância à Perseguição | Memórias e Materialidades” é a designação desta exposição, que muito tem feito também pela passagem deste conhecimento a todos os que pretendem conhecê-lo, sendo já, igualmente, polo de atração da visitação turística que aqui defendo. Em boa hora a autarquia conimbricense, desde o anterior executivo, diga-se, tem reconhecido a importância deste fenómeno e trabalhado de acordo para a sua valorização. Fala-se da criação na cidade de um centro de interpretação judaico, o que seria mais um passo decisivo para Coimbra se posicionar também como um destino de turismo judaico. Mas, e termino, este posicionamento estratégico só poderá estar completo quando Coimbra integrar a Rede de Judiarias de Portugal – Rotas de Sefarad, criada em 2011, precisamente com o objetivo de conjugar a valorização histórica e patrimonial com a promoção turística a partir da herança judaica no nosso país. Nesta rede cultural e roteiro turístico estão já 37 concelhos, de norte a sul, do litoral ao interior. Falta neste elenco, claramente, Coimbra.


