Opinião: A Igreja é jovem
No ensaio “A religião dos alentejanos”, o historiador José Mattoso, recentemente falecido, conclui que, com exceção dos principais centros urbanos, nunca houve verdadeiramente uma presença contínua da Igreja nas zonas rurais do Baixo Alentejo. A acentuada “descristianização” que hoje aí se verifica decorre naturalmente, na sua interpretação, de uma quase permanente “marginalização por todas as autoridades eclesiásticas”, ao longo dos séculos. O primeiro anúncio nunca terá assim verdadeiramente chegado a uma parte muito significativa da população, uma indicação histórica que talvez devesse ser mais bem ponderada pelos muitos filósofos da “decadência religiosa” que hoje abundam. Esta surpreendente conclusão de José Mattoso antes parece constituir uma interessante confirmação do bem-humorado comentário do jornalista e escritor inglês Gilbert Chesterton, sobre o cristianismo: “O ideal cristão não chegou a falhar; foi considerado difícil e nem sequer foi tentado.”
Este Cristianismo que poucas vezes foi experimentado ao longo da história mantém assim uma perene frescura e capacidade de atração, enquanto “as seduções de filosofias egoístas ou hedonistas, ou as do desespero e da aniquilação” vão florescendo, crescendo e, à medida que se verifica o seu flagrante insucesso, desaparecendo ao longo dos séculos. Nos dias que correm, por exemplo, qualquer descendente de macaco pode carregar num botão e destruir a Humanidade. Já “amar o próximo como a si mesmo” permanece um objetivo tão difícil de alcançar hoje como há dois mil anos atrás, seja na microescala do mero sorriso ao vizinho, seja na macroescala de um mundo globalizado e desigual, na vida e até na morte.
À medida que as gerações vão passando e tentando elevar-se em direção ao modelo estabelecido por Cristo, não causa também admiração que, ao verificarem a sua incapacidade, depositem nas gerações subsequentes a esperança de que estas sejam capazes de chegar um pouco mais longe. Os idosos bispos, no fim do Concílio Vaticano II, dirigiam assim uma carta aos jovens onde exortavam: “Lutem contra todo o egoísmo. Recusem dar curso livre aos instintos de violência e ódio que desencadeiam guerras e todo o seu comboio de misérias. Sejam generosos, puros, respeitadores e sinceros e construam com entusiasmo um mundo melhor do que aqueles que os vossos pais tiveram.”
Os jovens de boa-vontade a quem estas palavras eram dirigidas em 1965, bem como os que lhes sucederam, não conseguiram ainda levá-las a cabo, conforme testemunha o presente. Os jovens que se juntarão nas próximas semanas em Lisboa não as esqueceram, porém, e o seu entusiasmo é, literalmente, vital para todos, crentes ou não.


