Opinião: “A Indecência de não ter onde morar”
O mundo da minha adolescência estendia-se entre o largo do Arnado e o largo da Portagem. Vivia na Conchada, que era um afluente daquele rio de gente. O que talvez nos escapasse, nas idas e vindas de cá para lá, era a existência de tantos moradores naquelas casas altas de rés do chão comercial e, dali para cima, armazéns, consultórios médicos e casas de habitação. Os moradores fazem muita falta naquele quase-só corredor de passagem, onde deixou de haver a galeria do “Primeiro de Janeiro”, a Novalmedina, a Atlântida, os pontos de encontro da Brasileira e do Arcádia, a barbearia do Basílio, a loja-museu do Santos Ventosa, a Hilda (dos retratos da Cidade).
Ali ao lado, em território de cota inferior, que a cheia do Mondego às vezes submergia, a Baixa era o lugar dos ofícios e do comércio mais miúdo. Dali saíram, há muito, os bazares, as sapatarias, as lojas de ferragens, as mercearias, o império de vidro e barro do Saul Morgado, o Loureiro dos Cafés (que deixou um balcão de liquidação de heranças familiares tomar-lhe o perfume), e quase só o Pedrosa resiste ali ao Largo do Poço, a vestir gerações de bebés desta terra. Do outro lado, além do Arco de Almedina, o Quebra Costas abrigava lojas de mobílias e moradores, muitos moradores, que eram o sangue da Cidade.
Muito frágil se revelou, afinal, aquele mundo de gente e suas ocupações. As ruas desta cidade arrumaram-se facilmente em meia-dúzia de corredores de superfícies comerciais, e a morte marcada da Jaime Cortesão e da Estação Nova dará por encerrado um tempo de Coimbra, substituindo, por gente nenhuma, a gente que morava, que trabalhava, que comprava, que passava tempo a ver a Cidade fluir.
Serve a saudade para pouco. Usemo-la, então, nestas páginas de também-Cidade para lutar pela reposição do que continua a ser roubado à respiração da urbe – a morada das pessoas nas ruas precisadas de gente. Casas sem gente são o pasto do negócio imobiliário sem freio, inventor dos muitos “espaços” que alimentam o exercício especulativo que é a sua razão de ser. Mas a existência de tanta gente sem casa é razão suficiente para que as governações das cidades, as governações do país, tomem medidas que travem a conversão de cidades inteiras num catálogo de metros quadrados que os fundos imobiliários compram por tostões para vender por milhões.
O governo apresentou agora “ao país” aquilo a que chamou “Nova Geração de Políticas de Habitação”. Porém, bem vistas as coisas, o produto é exatamente o contrário do publicitado. A “nova política” desprotege inquilinos e pequenos proprietários e inspira-se, afinal, na cartilha neoliberal: alarga os benefícios fiscais para especuladores, põe a Autoridade Tributária a cobrar rendas, trava o investimento público, garante à Banca o papel de (des)regulador do mercado, de dona da maior parcela do rendimento das famílias, de executora das vidas desvalidas.
No Portugal de tantas mil habitações devolutas, haver gente sem casa e casas sem gente não é uma fatalidade – é indecente.


