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Opinião: A melhor escola é a que ensina a pensar

25 de às 09h45
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Todos os anos, por esta altura, os jornais publicam o ranking das escolas, que lista estabelecimentos de ensino público e privado, de todo o país, em função dos resultados dos exames nacionais do Ensino Secundário. Todos os anos a mesma coisa: uma lista que ignora a complexidade e os desafios do contexto. Não se pode comparar o que não é comparável. Os alunos não arrancam todos da mesma casa de partida, nem têm todos o mesmo mapa. E os rankings das escolas, a terem alguma utilidade, só podem servir para definir políticas públicas de Educação que nos permitam caminhar rumo a um futuro que garanta que ninguém tem a história escrita à nascença. O que é que define uma boa escola?

Quando eu estudava jornalismo, ensinaram-me que mais importante do que mostrar os números é pôr os números a falar. Uma média de 12 numa escola pública situada num bairro social é tão – ou mais – significativa do que uma média de 18 num colégio privado situado num bairro com elevado perfil socioeconómico. O número de alunos com necessidades educativas especiais que consegue terminar o ensino secundário, ingressar no ensino superior e cumprir-se, é tão – ou mais – significativo do que o número de alunos que consegue entrar em Medicina. As notas de Educação Física ou Expressão Plástica são tão – ou mais – significativas do que as notas de Matemática ou Física. Tudo depende dos alunos, do contexto, dos objetivos e daquilo que definimos como sucesso. Os alunos das escolas do Restelo têm melhores notas do que os da Baixa da Banheira. Mas o que é que isso nos diz? Estar perto da Torre de Belém, desde tenra idade, desenvolve a inteligência das crianças? As escolas são uma pequena amostra do que somos em grande escala: refletem, também, os nossos valores, crenças e comportamentos – e o que somos, ou queremos ser, enquanto grupo. Não é possível avaliá-las, de forma séria e comprometida, sem as avaliar no seu todo.

E isto inclui os alunos, as suas famílias, as suas histórias pessoais, o seu contexto social, cultural, emocional; as suas competências, mas também os seus desafios. E também inclui os professores, as suas lutas, as suas dificuldades e a sua missão. E o nosso tempo – os desafios do nosso tempo, dentro e fora da Escola.

A Escola Pública é uma grande conquista civilizacional. É, juntamente com o Serviço Nacional de Saúde, a maior herança de Abril. É um projeto de longo prazo, um desígnio social e democrático, de todos. Faz tanto sentido tentar relacionar a média de notas dos alunos com a qualidade da Escola Pública, como tentar relacionar a qualidade de um investigador com o número de papers que publica num ano. Os rankings, como são feitos, não mostram nada e só servem para atacar a Escola Pública. E atacar a Escola Pública é combater o futuro.

Eu sou um produto da Escola Pública – e muito me orgulho disso. Sou neta de dois homens que foram analfabetos até à idade adulta: um pescador e um pedreiro, dois filhos de homens que nunca foram meninos e dois dos homens mais inteligentes que alguma vez conheci. Podiam ter sido tudo, se a vida o tivesse permitido. E, para mim, foram tudo: eram das pessoas mais trabalhadoras, sábias e humanas que alguma vez conheci. Felizmente, o meu país deu-me as oportunidades que lhes roubou e é essa a única diferença entre as nossas histórias: eu tive oportunidade de escrever a minha. A Escola é um projeto de formação que extravasa, em muito, os programas avaliados nos exames. Uma boa escola é aquela que permite aos alunos mais vulneráveis ir mais além; a que ensina que o mundo é complexo, heterogéneo e cheio de diferenças que devemos abraçar. É uma casa feliz, para onde os alunos caminham, diariamente, curiosos e com vontade de aprender; um lugar de entusiasmo, descoberta, construção e conquista – um lugar de exigência, mas também de reconhecimento e empatia. Uma boa escola é a que nos faz entender que, ao contrário do que a Matemática ensina, às vezes, um 12 é maior do que um 18. A melhor escola é a que ensina a pensar.

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