Opinião: À Mesa com Portugal – A Coradinha e o Queimoso
Algumas vezes, ouvia falar da coradinha, outras do queimoso, na maioria do colorau e do piripiri. Certo é que, no rol dos ingredientes da maioria das receitas, um ou outro, não faltavam, o que, desde logo, demonstrava o apego que na cozinha se tinha a estes condimentos. Mas era preciso perceber o que eram pois, se na cor, eram semelhantes, já no sabor as diferenças eram óbvias. O segundo picava na boca, o primeiro coloria de vermelho, dava cor, à comida.
O pimento, fruto do pimenteiro, é o que está por detrás de tudo isto, mas aqui é preciso esclarecer. O género Capsicum spp. pode derivar em várias espécies, sobretudo, devido à promiscuidade que acontece na polinização. No entanto, as mais conhecidas são o pimenteiro doce (Capsicum annuum L.) e o piripiri, também conhecido por gindungo ou malagueta, (Capsicum frutescens L.). A primeira admite variedades que vão desde o doce ao intensamente picante. Já a segunda, apenas dá frutos picantes.
Da seca e redução a pó destas diferentes espécies resultam os referidos, colorau (coradinha) e o piripiri (queimoso). O que os distingue será a ausência ou intensidade de picante, pois que o primeiro apenas dá cor e é inócuo no que a picante diz respeito e o segundo imprime “personalidade” ao cozinhado pelo que faz picar na boca. Por isso, o colorau era tão importante para as cozinheiras, já que permitia dar uma corzinha ao cozinhado numa altura em que o tomate não teria grande expressão nas receitas.
Há que referir que, nós portugueses, na utilização do pimento na cozinha, sempre estivemos mais próximos da versão doce, enquanto os nossos vizinhos espanhóis sempre se aproximaram da versão mais picante. Na verdade, apenas com as viagens marítimas do povo espanhol pela América do Sul foi possível conhecer o interessante pimenteiro que, pelos povos nativos tinha já várias utilizações. É, por isso, ingrediente que viajou desde o outro lado do Atlântico e se fez parte integrante das cozinhas portuguesa e espanhola de forma diferenciada.
A esta diferença atribui-se o facto de que Portugal, muito próximo dos circuitos comerciais da pimenta, sempre acolheu esta especiaria no seu receituário, não tendo, por isso, grande necessidade de adotar a versão picante do pimento. Já os espanhóis, viram neste fruto a “especiaria” perfeita para o aperfeiçoamento do seu gosto culinário.
Na minha casa, era ritual de final de Verão fazer a massa de pimentão-doce. Era orgulho do meu pai trazer caixas e caixas de pimentos que, primeiro, eram lavados, cortados, e limpos de todas as sementes. Depois, eram dispostos, em camadas, numas caixas que deixavam escorrer a humidade e cobertos com uma boa macheia de sal para obrigar os pimentos a largarem a água. Ficavam alguns dias assim e eram cozidos num tacho com um bocadinho de azeite.
De seguida, eram triturados até ficarem numa pasta sem qualquer parte da casca. Finalmente, era essa massa de pimentão posta em frascos e cobertos com azeite. Lembro-me que, durante o Inverno, a minha mãe pedia-me ajuda para ir ver como estava o pimentão. Era função responsável destapar os frascos e perceber se era preciso acrescentar mais azeite de forma a evitar os bolores.
Lembro-me do cheiro e da cor intensa. Mas lembro-me, sobretudo, como para família, vizinhos e amigos, aquele era o ingrediente secreto que fazia maravilhas em todos os cozinhados. Diziam que era a mão secreta da avó Natália a dar o tempero certo.


