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Opinião: À Mesa com Portugal – a Língua

14 de às 10h45
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A língua não é um adereço. É um dos órgãos mais fascinantes que temos. Provavelmente devemos à língua a nossa sobrevivência, pois que, desde sempre, a forma como escolhemos os alimentos muito ficou a dever à triagem que este órgão permitiu. O bom e o mau, aquilo que nos alimenta e o que nos intoxica, tudo isso vem da função prioritária da língua. Quantas vezes, perante a dúvida do alimento que temos à nossa frente não o colocamos, a medo, sobre a língua e, muito timidamente, vamos saboreando. Das duas uma, ou damos permissão de entrada mastigando e engolindo ou, então, barramos o alimento cuspindo. Sempre percebemos o doce como atrativo e nutritivo e o amargo como perigoso e fatal. Pelo meio, ficámos entusiasmados pelo salgado e achámos o ácido um delírio, em situações muito específicas. Aliás, se calhar habituámo-nos ao ácido por uma necessidade de sobrevivência e aprendemos a dar-lhe valor. Não queremos sempre, mas não há nada melhor que uma ameixa com aquele travo de acidez ou um escabeche que arrepela na boca. Urgência em sobreviver que nos fez descobrir coisas maravilhosas.
Mas a língua é mesmo um órgão maravilhoso. Mais do que comer, adoro o que ela me deixa sentir o sabor. Não como se estivesse a dissecá-lo ou a analisá-lo, mas só a saborear. Por isso, gosto de evitar a rotina do sabor. Não comer sempre a mesma coisa ou comer, àquela hora, aquela coisa que num determinado momento nos fez sentir bem. Às vezes, até gosto de provar o inusitado como uma fruta ainda meia verde ou um queijo pouco curado para entender a beleza de uma fruta madura no ponto certo ou um queijo com várias meses de cura. Gosto de sentir o ácido ou o amargo a cortar-me a língua e dou graças porque os nossos antepassados souberam transformar o perigoso em inofensivo e muito saboroso.
Fico desfeita quando percebo que as nossas crianças não se sentem impelidas a experimentar novos sabores e vivem no conforto do “mundo feliz” do doce e do salgado como se não existisse mais nada. Fico triste ao pensar que reduzem brutalmente a paleta de sabores apenas porque a abundância não exige pensar na conservação, na transformação para conseguir a sobrevivência. Temos crianças moles, cheias de rotinas do tudo disponível dentro de um pacote, todos os dias, que não se deixam provocar por um pico de acidez ou de amargo. Estão bem confortáveis no mundo colorido do sempre disponível e nem percebem que a marmelada só tem o sucesso que tem porque o marmelo cru pouco préstimo tem. Para descobrirem isso precisavam experimentar o marmelo cru e depois deliciarem-se com uma fatia de marmelada. Mimos que hoje não abundam.

 

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