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Opinião: À Mesa com Portugal – A minha língua mãe

13 de às 13h07
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Às vezes chateia ver a língua inglesa a substituir a língua portuguesa, assim, de forma tão gratuita. Já não basta a maioria dos jovens ter melhor aptidão para falar a língua inglesa, agora nós, os adultos, porque queremos ser modernos, usamos expressões e palavras inglesas para designar coisas tão simples como comida, vinho, pão, carne, etc. Até parece que temos um problema de expressão no que a comida diz respeito. É claro que se queremos afirmar a gastronomia portuguesa lá fora temos que saber vender uma expressão que chegue numa língua entendível pela maioria, mas se estamos em Portugal, porque não falar em português?

É que a língua portuguesa não é escassa em sinónimos, nem as palavras recheadas de conteúdo. E do alimento à comida, passando pela cozinha, arte culinária ou gastronomia, a língua mãe está disponível para fazer estalar água na boca, até aos mais distraídos.

Confesso que estou um bocadinho cansada dos “food festivals” e de tantas outras utilizações para designar o que acontece na nossa cidade, na nossa aldeia, ali ao virar da esquina. De repente, até parece que para atrair público tem que se centrar num discurso que, para algumas pessoas, as mais velhas, aquelas que não sabem inglês, nada diz.

Sei que a língua inglesa tem um encanto difícil de explicar. E que dizer “food festival” é muito mais interessante que “festival gastronómico”, ou que “craft beer” fica mais bonito que “cerveja artesanal” e que “wine” soa muito mais urbano e dentro da moda que vinho. Mas é um imaginário cultural que se perde, ao mesmo tempo que parece que esquecemos os deliciosos conteúdos das palavras associados à nossa maneira de ver e viver os seus significados.  

Se não cuidarmos da língua portuguesa, ela vai-se degradando na utilização que fazemos dela. As palavras irão perder-se pela sua não utilização, serão rabiscos em dicionários, palavras que ninguém irá perceber pela ausência das emoções vividas. E eu gostava que não tivéssemos uma terra das palavras esquecidas, composição de letras prestes a serem desentendidas.

Posso estar a ser excessiva. Acredito que sim. Mas, tenho para mim que as palavras são como as receitas. Se não as cuidarmos, elas acabam por perder sentido e deixam de fluir entre gerações. São como aquelas comidas que já ninguém lembra como era o sabor, ou não se sabe a ordem dos ingredientes, ou não se recorda o truque que a fazia especial.    

A língua portuguesa tem doce e tem sal, é ácida quando se quer, azeda quando necessária, picante qb, às vezes até parece uma açorda pelas vezes que se mexe e abebera de significados. Às vezes, fica mais seca e parece uma miga. O ensopado está sempre lá e a sopa nunca nos deixa mal, pois tudo no pote ou na panela só dá sabor. Mas há palavras que são como o pão, bastam por si. Mas tenho para mim, que todas moram no nosso coração, mais do que no nosso estômago. Quero a minha língua mãe na minha boca.

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