Opinião: À Mesa com Portugal – Atum no bolso
Há uns meses que não como atum. É claro que não deixei de gostar de um momento para o outro, simplesmente, fiquei impressionada com o consumo excessivo que se faz do atum e com todas as consequências que tal acarreta. Há meses que ando para escrever sobre o assunto, mas dava por mim sempre a saltar sempre de tema. Talvez por nostalgia ou falta de coragem em ler e investigar sobre um assunto que, à medida que ia avançando, me deixava incomodada.
Primeiro fiquei fascinada com o imaginário da pesca do atum no Algarve. A prática da almadrava encheu de colorido a minha imaginação ao reproduzir em pensamento a chamada tourada marinha que homens do mar experientes travavam com atuns de grande porte. Impossível fugir a esse imaginário que nos leva para um tempo em que, tal como o porco ou a vaca, do atum tudo era aproveitado e o seu sacrifício destinava-se a alimentar o quotidiano das famílias.
Depois, tive o embate com a realidade. Com a pesca excessiva que grassa mesmo à nossa porta e com as dificuldades de subsistência das espécies. Foi nessa altura que deixei de olhar para o atum fresco ou para as latas de conserva. Não pelo atum, claro, mas pela falta de consciencialização acerca do mundo que rodeia a pesca deste peixe. Também aqui faço mea-culpa pela inocência de achar que o tão proclamado peixe tão procurado e tão gabado, afinal tinha uma história, nem sempre feliz pela avidez ganância humanas.
Acredito que, tal como eu, muitos consumidores nunca tenham pensado nas muitas questões que um bocado de atum fresco ou envolvido em azeite, dentro de uma pequena latinha, pudesse arrastar. Então, quis saber mais acerca das espécies, das rotas migratórias que realizam, o que comem, como são pescados, como são cozinhados. Atum Gaiado ou Bonito, Atum Voador, Atum Albacora, Atum Barbatana Negra, Atum do Sul, Atum Patudo, Atum Rabilho. Tantos e com caraterísticas diferentes. E alguns deles, sob ameaçada devido à pesca intensiva.
Em relação ao atum põe-se o mesmo problema que existe com o bacalhau. Precisamos comer assim tanto? Sabemos o que comemos? Qual a espécie? Como é pescado? Na verdade, mais do que comer ou não comer, a questão é saber o que andamos a comer, o que no atum assume proporção de consciência social e ambiental. E na pesca como na agricultura há uma face negra que nos tira o gosto de comer o que gostamos e nos dá o desgosto de nos sabermos egoístas e ambientalmente irresponsáveis.
A pesca é dos setores onde é mais difícil definir regras e tomar consciência ativa. Nada do que parece é e o que é, às vezes, assusta. A certificação das pescas urge. Mas, também urge mais literacia sobre o tema das pescas e sobre o atum. Sabermos o que andamos a comer não tem só a ver com a qualidade ou falta dela, tem também que ver com o que queremos que seja a nossa vivência alimentar. Basta procurar que há informação séria e com conteúdo.
Note-se, esta não é uma questão do século XXI. Sempre soubemos a importância de conhecer o que comemos, só que, houve tempos em que tínhamos orgulho no que comíamos e compreendíamos o sacrifício da morte pela necessidade da alimentação. Hoje é só um pedaço anónimo de carne ou de peixe. Pelo meio ficámos num desconexo arrepiante e tão sensaborão. Voltar atrás e perceber o que comemos e porquê vai ajudar-nos a descobrir muito. A começar pelo sabor e, depois, a paz, o equilíbrio, a ausência de culpa, a tranquilidade.


