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Opinião: À Mesa com Portugal – Data de Validade

05 de às 09h44
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A idade não tem de ser um tema, mas a forma como lidamos com ela já é motivo de análise. Constrange-me a inversão a que se assiste. As crianças são tratadas como pequenos adultos esclarecidos e os idosos são tratados como crianças. Reparem. Não raras vezes, numa mesa de almoço, qualquer frase dita por uma criança é tomada como sinónimo de inteligência precoce, verdade absoluta realçada vezes sem conta pelos progenitores babados. Do outro lado, a conversa de um familiar mais velho é, frequentemente, tratada com condescendência.
A velhice, outrora, sinal de esclarecimento, sabedoria, sensatez é agora tratada como sinal de infância. A forma como falamos com os mais velhos, como se eles fossem crianças ou estivessem diminuídos nas suas capacidades diz muito sobre o que pensamos da idade. Perdemos o respeito por quem já viveu muito. Não falo da falta de paciência para ouvir as histórias, falo do respeito pela dignidade. E isso vê-se, sente-se, nas palavras que dirigimos e o modo como entoamos as perguntas ou fazemos os comentários. Olhamos a idade como um passar de moda, tão habituados que estamos às tendências. Ainda que as rugas sejam, atualmente, um lugar comum na promoção publicitária, seja ela qual for, não lidamos bem com o passar do tempo.
Talvez isso seja só um sinal do que fizemos a nós próprios, às raízes que nos criaram. Mas o certo é que desvalorizamos as vontades, o saber, a independência, a moralidade e a ética da velhice como se ela fosse um estado menor ou incapacitante. É claro que não se tem a mesma agilidade física ou mental. É claro que nem sempre o discernimento vem ao de cima. Mas, não vamos tratar os idosos como se eles fossem bebés. Ainda que eles se babem, ainda que tenham de usar fraldas, ainda que não tenham um ar fresco como gostamos. São pessoas. Não precisam da nossa piedade ou condescendência moral.
Do outro lado, reinam os pequenos príncipes, exigem do seu trono as crianças tratadas como figuras centrais da família. Basta assistir às refeições com crianças para sentir a conversa permanente que a família engendra em volta do elemento mais novo. Ora é objeto de atenção da mãe ou do pai, ora do avó ou da avó, ora de um outro qualquer adulto que esteja na mesa. Parece que não sobrevive sem ser o centro das atenções, pois que a birra desperta quando se esgotam os momentos engraçados ou o seu tempo de antena.
Sem crítica fácil. Mas podemos deixar de ter pequenos ditadores numa ponta da mesa e, na outra, o silêncio que a ditadura da idade impõe? Somos pessoas. Todas, sem data de validade.

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