Geralopiniao

Opinião: À Mesa com Portugal – Fidelidades

21 de às 10h37
0 comentário(s)

Até podia ficar calada e achar que não valia a pena meter achas na fogueira, até porque o sistema em que vivemos arranja sempre desculpa para o que não é desculpável. Mas não, não vou ficar calada, pois não quero que o futuro seja feito de silêncios que magoam e prejudicam. Não tem de ser feito de acusações fáceis ou discursos de vitimização, mas não pode continuar a ser de hipocrisia e ameaçado por solidariedades absurdas.
Sobre as recentes acusações de possível assédio na Universidade de Coimbra e na Igreja, apenas digo que espero que se aclare o tema e se faça justiça, para ambos as partes. O tema é demasiado sensível para ficarmos pela meia verdade, o que iria prejudicar todos os envolvidos.
Mas também digo que, em relação ao assunto, podemos escolher falar à boca pequeninha ou à boca cheia. E, sinceramente, penso que, na maioria das vezes, é mais fácil falar à boca pequeninha. É mais fácil esquecer o assunto, descredibilizar quem denuncia, pôr no final da conversa para não criar incómodo, deixar passar o tempo e impor o silêncio.
É que sim, o assédio existiu e existe. Ocorre contra quem, por vários motivos, se encontra numa situação de inferioridade e que, perante uma relação de poder desequilibrada, é obrigado a aceitar uma situação com a qual não se sente confortável. Não tenho formação jurídica, mas é assim que eu entendo a situação. E neste capítulo, custa-me muito perceber que o problema não está tanto no abuso em si, embora este constitua por si só uma situação horrível para quem o sofre, o problema está no modo hipócrita e despudorado com que os grupos sociais defendem quem faz o abuso, quem o cala, quem o desvaloriza, quem o esconde porque estão em causa solidariedades institucionais, familiares, de género, associativas ou de outra ordem qualquer.
Ninguém quer saber do que se passa. Ninguém quer saber do que se passou. Tudo se passa na sombra, ainda que à frente de toda a gente. Vêm depois os discursos que a linha que separa a perversão do aceitável é muito ténue, de que o(a) senhor(a) era uma pessoa respeitável e que isso deve ser invenção, de que havia uma relação de confiança que fez supor ao abusador que tinha o consentimento do abusado. Justificações não faltam, infelizmente. E, lá vamos passando pelo silêncio, pela vergonha, pela frustração, pela infelicidade de sabermos que a sociedade é hipócrita, que não julga de acordo com o que se passou, mas esconde-se atrás de fidelidades invisíveis que protegem os favores que se vão conseguir se o laço não for quebrado. E, tristemente, a vergonha fica com o abusado e repousa no silêncio de histórias nunca contadas. É tempo de mudar.

Autoria de:

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Geral

opiniao