Opinião: À Mesa com Portugal – Trendy
Adoro o lado divertido da cozinha, irrita-me o lado fancy, trendy e outras tantas coisas em que o erudito se mistura com o popular e fica kitsch, apalermado, entre o maravilhoso e o parolo. A cozinha está se a transformar numa indústria e parece que é pior que a tv. Péssimo!
A forma como a sociedade rejubila perante o poder da comida é, por vezes, enternecedor, contudo irrita quando percebemos que é como na política, não interessa quem faz, interessa quem comenta e sabe usar a pose. Sinto que a gastronomia que vem a lume, deixou de ser, para passar a parecer. É como se, cada vez mais, estivesse presa num retângulozinho onde imagens e palavras passam com discurso encomendado.
Eu sei que sim, que faz parte da necessidade de gerar dinheiro, de associar patrocinadores de peso, de conseguir direito de antena, até de gerar respeito pelas profissões associadas. Mas no meio de tudo isto, sinto um ambiente parasitário em relação a algo que deveria, antes de mais, ser genuíno, alimentar-nos o físico ao mesmo tempo que nos preenche a alma.
É como as agências de comunicação. Estudam as tendências, analisam a onda e depois constroem o cenário e o discurso, mas não devia ser assim. No tanto que há para fazer pela gastronomia portuguesa é uma perda de tempo, irmos atrás da tendência esquecendo a essência. Sim, porque a tendência cumpre desígnios pessoas e promove personalidades. Já a essência, o núcleo, o âmago, faz crescer regiões, ajuda a preservar paisagens, pode dar felicidade às pessoas e renovar comunidades.
Até dói perceber como as tendências arrastam multidões sem ninguém questionar o que temos à frente. Como dizia uma amiga minha, agora, estamos na era do pote. Quanto mais negro pelo fumo, melhor, e até se fala de como a capa de gordura que se cria no seu interior faz com que a comida saiba diferente. Mas, já tivemos a era da cataplana. E já saltitamos pela era da telha. Daqui a nada, estamos na era da sertã e lá vamos ouvir o regurgitar das memórias da mãe, da avó, da tia e da prima e da dita sertã. Sim, porque a era do pote está a acabar e deixar de render.
Às vezes, sinto que andamos à procura do Santo Graal da Cozinha desbaratando o que ela tem de bonito e de genuíno, extenuando o filão. E, tal como nos programas de tv, deixamos que os que conduzem as tendências peguem na realidade e façam dela uma peça de teatro. Os adereços que importam, as palavras necessárias, as memórias de fazer chorar as pedras da calçada, a roupa, o estilo e a pose carregada de intervenção social.
Sinceramente? Já não há paciência para tanta tendência. A cozinha e a gastronomia devem estar no nosso coração.



Eu gosto da “Era do parolo” leva-me à sobrevivência. Relembrar cozinhar outros tempos é bom.
O que se facilitou, pode ter a sua dureza num futuro.
O fogo, o ferro, o barro, e as folhas são a conexão com a sustentabilidade.
Fica a minha opinião,também. Só assim faz sentido.
Hoje o dia da Mulher Rural lembra a pedra sobre o grão e pedra, o lume e o fogo. O barro e o joelho.
Beijinhos Querida Olga, beijinhos.
Maria, obrigado pelas suas palavras. Há sempre tanto mais a dizer sobre o que representa a nossa cozinha, o que ela tem de pessoal e de alma de todos nós.
Obrigado pelo seu comentário que é um estímulo. Beijinho.