Opinião – A nova ordem dos desalinhados
As relações entre a Europa e os Estados Unidos com a China e a Rússia, por um lado, e com a África do Sul, tornaram-se cada vez mais tensas nas últimas semanas. No meio da recente crise diplomática despoletada por Washington, que acusou Pretória de enviar armas e munições para a Rússia, subsiste a constatação de que para os países ocidentais, a China e a Rússia representam regimes “autoritários”. Já para Pretória, Pequim e Moscovo, esses países são “fonte” de insegurança mundial, usando o seu estatuto de “grande potência” para garantir a “obediência” e a aplicação de uma “diplomacia coerciva” contra o Sul global.
Esta visão desde o país de Mandela, um dos únicos países a defender o bom senso internacional através do diálogo e de uma solução de paz mediada no conflito na Ucrânia, reconhecendo a violação da soberania pela Rússia, sublinha o declínio do unilateralismo mundial da Europa e dos EUA, nomeadamente a sua incapacidade de isolar a Rússia e de conter a influência da China nos países em desenvolvimento.
“Alguns países, inclusive o nosso, estão a ser ameaçados com sanções por seguirem uma política externa independente e por adotarem uma posição de não-alinhamento”, referiu, pela primeira vez, nesta quinta-feira o presidente sul-africano ao assinalar o Dia de África.
Cyril Ramaphosa, que já havia anunciado um inquérito às alegações dos EUA, vincou que a África do Sul “não esquece o legado terrível e brutal de primeiro ter o nosso continente dividido e colonizado por países europeus, apenas para nos encontrarmos mais uma vez como peões num tabuleiro de xadrez durante a Guerra Fria”.
“Não vamos voltar a esse período da história”, garantiu Ramaphosa, frisando que a África do Sul “não foi e não será arrastada para uma disputa entre potências globais”.
O G7, que representa somente 10% da população mundial, considera Pretória “desalinhada” juntamente com os mais de 40% dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
Todavia, no país de Mandela, valoriza-se com apreciável grau de civismo a diferença, sempre em prol do respeito e o diálogo entre culturas, sem o cancelamento à la carte como se assiste atualmente na Europa. Depois de Agosto, logo se verá a nova ordem.


