Opinião: A retórica no presente e o futuro
Não é novidade nenhuma dizer que todos andamos confusos. È como se nos faltasse o chão por onde caminhar. Não há valores comuns, não há crenças comuns. Subsistem apenas algumas crenças, cada vez mais espartilhadas quando não individuais. No fundo mantém-se ainda a crença no valor do dinheiro, cada vez mais duvidosa. A história, as ideologias e até as religiões são cada vez mais adulteradas pelas retóricas de circunstância.
Descobertos os truques da comunicação, a retórica sobrepõe-se a tudo. Omitindo alguns acontecimentos, realçando ou mesmo deturpando outros, acaba por alterar a história, mesmo que esta se vá impondo como ciência. Resta acrescentar que a própria ciência não fica incólume à influência da retórica. Quanto às ideologias, que durante muitos anos mantiveram alguma estabilidade, estão hoje irreconhecíveis pelas acções, retóricas e contra-retóricas dos seus protagonistas.
Assentes em dogmas indiscutíveis, restam as religiões e os textos sagrados. O seu valor persuasivo assenta em muito mais do que na retórica, incluindo os rituais, os símbolos, a participação dos crentes e a solidariedade entre eles. A apetência dos políticos para se apoderarem delas é irresistível, e nunca como nos últimos tempos se viu tal apropriação. Não estão em causa as grandes religiões que envolvem várias nações ou populações dentro delas. Mas onde as cisões são fáceis, o Estado-nação facilmente se funde com um grupo religioso apropriado e usa-o em seu favor. O caldo resultante, que se impõe pelo seu pensamento simples, pode ser explosivo e levar à desgraça das populações. Todo esse movimento se pôde verificar recentemente na evolução da igrejas evangélicas do Brasil e Estados Unidos, já era notório nas religiões islâmicas e começa a verificar-se nas igrejas ortodoxas A receita, porém, é sempre a mesma: valendo-se da ignorância, o pensamento simples sobrepõe-se ao pensamento crítico e complexo.
A Teologia, que começou nos pré-socráticos, ainda é praticada, e com maior força nas grandes religiões transversais aos diversos Estados-nação. Nela ainda domina o pensamento crítico e complexo, acabando por se fundir com a Filosofia. Se existir, como parece, uma guerra do pensamento alimentado pela retórica, a Teologia acaba por constituir um dos lados da barricada: o do pensamento crítico e complexo. Será maioritária? Não sabemos. Mas sabemos que o outro lado, o do pensamento simples e ignorante, se tornou mais eficaz na sua acção destrutiva, se não autodestrutiva.
Num tempo de tecnologia avançada e de tanta infromação disponível, não deixa de ser paradoxal o confronto entre aquilo que vemos e aquilo que pensamos. Aparentemente, nunca estivémos tão confusos e solitários ou metidos em bolhas incomunicáveis ao sabor dos algoritmos da Internet. Mas também são tempos fascinantes. Tal como no tempo de Sócrates, apenas podemos dizer: “Só sei que nada sei”. Mas foi então que nasceu a Filosofia que nos acompanhou até hoje.
Algo de importante está para acontecer. Muito se especula sobre o futuro, desde as visões mais sombrias às mais redentoras. Ninguém pode, por agora, fazer previsões. Mas o que acontecer pode depender de cada um de nós. Não se trata de retórica, mas de opinião crítica e informada, e acção coerente.


