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Opinião: Abaixo o ano velho. Viva o ano novo!

31 de às 12h52
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Alexandra Reis recolheu meio milhão, dizem as notícias. E de cadeira que vinha para cadeira migrou, numa deriva curricular que carateriza aquela parte da (mal) chamada “elite política” que, quando não comenta no ecrã, administra em grande. Alexandra Reis teve azar: na TAP, em que foi posta, teve uns desentendimentos e foi despedida. O tal meio milhão foi o valor da indemnização que, sendo direito do “dispensado”, tem, ali, o valor das lotarias. Diga-se, em defesa de Alexandra, que o despautério pecuniário cumpre escrupulosamente os requisitos de legalidade. Por isso, queixas que pudesse haver não deveriam ser dirigidas a Alexandra Reis que, vistas as coisas sem a devida profundidade, acaba por ser uma vítima. Várias vezes. A última foi o despedimento do tacho do Tesouro, mais por aparência do que por substância. Alexandra Reis é a encarnação do bode expiatório, decalcado das subidas Escrituras para o rasteiro Terreiro do Paço, exibida como expoente máximo da absolvição de pecados alheios, ainda que legalmente defendidos. Convencida de ser governante, Alexandra deu subitamente consigo na pele de governada, de condição “igual” à de milhares de compatriotas seus todos os dias despedidos por esse Portugal empresarial fora. A diferença está no montante reparador – e essa é uma diferença escandalosa, uma diferença de ordem política, um crime de ofensa à dignidade dos comuns, de que a governante Alexandra Reis é, afinal, cúmplice e beneficiária.
Ainda que a amnésia seja a maior qualidade do respeitável público do espetáculo do mundo, recordemos o calvário dos despedidos comuns, tantas vezes necessitados de luta sindical e sentença judicial entre a expulsão e o recebimento do montante “a determinar entre 15 e 45 dias de retribuição base e diuturnidades por cada ano completo de antiguidade”. Fosse Alexandra Reis uma vulgar trabalhadora da chamada classe média portuguesa, saberia que, para atingir o meio milhão que levou consigo, precisaria de ter ingressado na TAP ao tempo da Passarola do celebrado Bartolomeu de Gusmão. Mas não precisou. Os governos que bloqueiam as carreiras dos seus quadros médios e condenam 25% dos trabalhadores a um salário mínimo de miséria, são os mesmos que distribuem pela sua clientela os salários “conformes com o mercado internacional”. Os governos que criaram estatutos e CRESAPes, para legalizar plataformas de formação de gestores-de-privatização de empresas e instituições públicas e correspondentes serviços, são os mesmos que alargaram o “período experimental” dos trabalhadores comuns, que sujeitam os investigadores portugueses à perene precariedade da vida de “bolseiro”, que colocam todos os obstáculos à contratação de trabalhadores pelas autarquias.
Entre o silêncio e as juras de fidelidade aos valores da moralidade, os governantes de turno esperam que a borrasca passe. Ali ao lado, os da “alternância” – ainda ontem governantes – denunciam, ruidosos, os pecados de que já foram ativos titulares. Fiam-se (com assinalável razão) na sentença do malogrado Olof Palme, segundo a qual “a memória do eleitor tem a duração de seis meses”. Neste ambiente, de pecados e absolvições, não há que desvalorizar o papel dos “populistas”. O “populista”, à partida, tem sempre razão. O “populista” surge aos olhos dos comuns como porta-voz dos desvalidos na repartição da riqueza. E como tal é promovido em todos os ecrãs e a todas as horas do dia, fazendo com que o injustiçado incauto se identifique com as suas palavras, o seu rosto, o seu emblema, o símbolo no boletim de voto.
A História, porém, vem demonstrando que o “populista” é o antídoto mais eficaz para as ambições do povo – ele é o rosto da vingança, mas (também por isso) é o maior inimigo da justiça. Quando o “populista” denuncia o “sistema” é porque lhe quer ocupar o lugar – muda-lhe o nome, mas copia-lhe a função. O “populista” não passa, afinal, de um invejoso de elevada perigosidade, uma espécie de Robin dos Bosques do avesso, que rouba aos ricos dos outros o que dará aos seus próprios ricos, ampliando sempre a violência sobre os pobres, reprimindo sempre as suas organizações de classe.
A poucas horas de mudar um algarismo a 2022, talvez não seja preciso um milagre para que se perceba que a riqueza produzida neste mundo é suficiente para garantir as dignidades todas. E que a desigualdade não é uma fatalidade, mas apenas um produto da História – a mesma História que já provou, por repetidas vezes, que é possível a construção de uma sociedade nova, de um novo tempo de concretização dos mais justos desejos de Ano Novo. Feliz Ano Novo!

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