Opinião: “Ainda a “ponta do iceberg””
Sobre o tema dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica portuguesa, destaco duas mensagens quaresmais que me chocaram. A primeira, do bispo de Vila Real, António Augusto Azevedo, referindo que a Igreja está “com o coração carregado de dor e tristeza por causa das notícias dos graves abusos cometidos contra crianças”. A outra, do bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, que expressou “solidariedade” e o “pedido de perdão” às vítimas de abusos sexuais, afirmando: “Garantimos-lhes a nossa solidariedade e acolhimento, como contributo para ajudar a reparar os danos humanos, morais, e espirituais, que persistem nas suas vidas”.
Estas duas mensagens revelam o lado perverso e autoritário da mesma instituição, que não assume responsabilidades pelo escândalo em que mergulhou o país, as suas atitudes, e sobretudo pela verdadeira dor que causou a tantas famílias de abuso, não apenas sexual. Mais sinistro é o facto de quererem que sejam as próprias vítimas, as respetivas famílias e a sociedade, que supostamente deveriam servir, a “perdoar” os padres e bispos pelos seus abusos, dos quais, apenas se conhece até à data os casos de abuso sexual, de pelo menos 4.815 crianças ocorridos durante 72 anos ( 1950-2022 ).
É triste e revelador que a Igreja Católica se mostre ciente do espaço temporal, do privilégio, e da proteção que aufere num país sem projeto – apenas 25 dos casos foram reportados ao Ministério Público, e só 15 deram origem a inquéritos -, peça o “perdão” das vítimas, em vez de pedir “desculpa” às vítimas; e tente prevenir o “fenómeno criminal”. E as vítimas? E a sociedade? E o país?
Após 72 anos, a Igreja Católica deseja agora “acolher” as vítimas de abuso, ou seja, quer que voltem às mãos dos abusadores que as subjugaram a um longo sofrimento. É assim que vai assumir as suas responsabilidades, e os erros que cometeu e encobriu?
Durante 72 anos, as nossas famílias abriram de Boa Fé as portas dos seus Lares, permitindo o contacto dos clérigos com os nossos filhos, filhas, sobrinhos, sobrinhas, netos e netas. E no imediato, que medidas contra os abusadores vivos; contra aqueles que ainda estão no ativo, e contra todos os “encobridores” daquelas situações?
A Igreja e cada um dos seus padres abusadores têm de indemnizar as vítimas e as famílias. O relatório dos abusos sexuais, a lista dos abusadores, e as suas paróquias devem ser divulgados online. E importa agora também saber, o que fazer e como fazer para lidar com eventuais novos abusos, em cada paróquia, freguesia e aldeia, “independentemente de que seja”, como referiu o Papa Francisco. A quem é que as famílias se dirigem? Ao posto mais próximo da GNR?
Pode ler a opinião de Carlos Henriques, que reside na África do Sul, na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS


