Opinião – AnoZero no mosteiro – uma varanda sobre o mundo
Passam as mulheres e os homens pelos lugares e o que primeiro levantam é pó. Às vezes chegam mais longe, e dos seus passos se servem para desvendar caminhos, deixar e colher impressões, construir memórias. Quando a Bienal Anozero reabriu as portas do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova ao pó dos nossos passos, Coimbra inteira percebeu que tinha no regaço um tesouro. De um dia para o outro, a Bienal desvendou segredos e devolveu função à casa que foi das Clarissas e, depois, de militares e mancebos em dia de “sortes”.
A Bienal Anozero fez reviver o velho mosteiro seiscentista para lá da condição de monumental fronteira instalada na margem esquerda do Mondego. Os corredores, as salas, os pátios, passaram a ser de Coimbra inteira, e do demais mundo, em diálogo com as obras dos artistas, com as superfícies do edifício, os azulejos, a cantaria, a rítmica das portas rasgadas nos longos corredores de um espaço imenso cujo acesso geral passou a ser, também, um sinal de democracia.
O islandês Ragnar Kjartansson junta-se, nestes dias, em nome e obras, aos muitos artistas que, desde 2015, se vêm acrescentando à história de Santa Clara-a-Nova. As obras de Kjartansson serão – como o têm sido todas as realizações da Anozero – habitantes e cicerones daquele monumento sobre o qual pende uma pena de 50 anos de reclusão pelos crimes de ser belo, amplo, ter vistas para o Mondego e merecer, por tudo isso, ser presa apetecível dos industriais de uma das atividades menos inclusivas da História: o turismo de luxo.
Antes de combinar as suas obras com os lugares do nosso Mosteiro, Kjartansson mereceu acolhimento do madrileno Thyssen Bornemisza, do Metropolitan Museum of Art e do MoMa de Nova Iorque, do Barbican Centre de Londres, do parisiense Palais de Tokyo, da Bienal de Veneza, entre muitas outras instituições que compõem o mais excelente mapa da Arte Contemporânea mundial. Num tempo de vontade proclamada de promover a “marca” Coimbra, defender a Bienal Anozero e o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova é afirmar uma nova e consistente via de desenvolvimento cultural e económico da Cidade.
Incluir Coimbra nas rotas do Conhecimento não pode ser sujeitar uma estrutura de prestígio internacional à condição mendicante, nem transformar um tesouro sem preço em barracão alugado por esmolares 1500 € mensais. Alienar o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova – despejando sem remédio a Bienal Anozero, impedindo o acolhimento de artistas e criadores no espaço imenso daquele território, vedando o acesso de um edifício da História ao povo que a modela – é desrespeitar Coimbra, é desprezar as potencialidades de uma Cidade perdida, desde há décadas, nas malhas do subdesenvolvimento chorão.
Coimbra merece que consolidemos os caminhos de realização artística de nível mundial nos seus espaços patrimoniais; merece que recusemos a condição de barriga de aluguer da “política do evento”; merece que nos mobilizemos na defesa e valorização do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova que é, em si mesmo, uma obra de arte. É essencial promover e acarinhar as instituições que, cá dentro e capazes de acolher cidadãos universais como Ragnar Kjartansson, são o sangue da Coimbra que não desiste de fazer Cidade.


