Opinião – Antónia Adelaide Ferreira: nome de voo e de ponte
O Rio Douro vai ter uma nova ponte. A construção vai ter início ainda este ano e prevê-se que até ao final de 2025 esteja finalizada a estrutura que ligará, através do metro, o Campo Alegre, no Porto, ao Candal, em Gaia. As entidades envolvidas no processo (câmaras municipais do Porto e de Gaia e o Ministério do Ambiente, que tutela o Metro do Porto) decidiram partilhar com os cidadãos, com a ajuda de um jornal, a tarefa de escolher o nome da ponte. Havia seis possibilidades: “Ponte da Ferreirinha”, “Ponte Douro”, “Ponte da Boa Viagem”, “Ponte Engenheiro Joaquim Sarmento”, “Ponte da União” e “Ponte da Boa Passagem”. Votaram mais de doze mil pessoas, das quais 45% quiseram dar à ponte o nome de Antónia Adelaide Ferreira, uma das pessoas que mais fez pela região. Uma mulher sem medo que nasceu para unir, mas também para voar.
Antónia Ferreira, conhecida como “Ferreirinha”, foi uma empresária de sucesso, uma empreendedora e uma visionária. Nascida no início do Século XIX, numa família de viticultores e comerciantes de Vinho do Porto, em Peso da Régua, dedicou a vida à viticultura do Douro. Dona de uma inegável coragem e determinação, teve um papel fundamental na recuperação da região depois da praga da filoxera, que provocou a destruição dos vinhedos e atirou os agricultores do Douro para a miséria. Procurou combater a doença das vinhas com investigação e inovação: viajou para reunir informação sobre os meios mais modernos e eficazes de combater a peste e aproveitou para conhecer processos e técnicas inovadoras para a produção de vinho. Enfrentou pragas, más colheitas e falta de apoios: à devastação e às dificuldades respondeu sempre com trabalho, tenacidade e vontade de fazer renascer o Douro. Nunca desistiu. Fez frente aos ingleses que dominavam o negócio do Vinho do Porto e nunca teve medo de arriscar. Foi das primeiras a investir no extremo leste do vale do Douro, zona que estava fora do perímetro da Região Demarcada (cuja delimitação territorial foi o primeiro modelo institucional mundial de organização de uma região vinícola), redefinindo os seus limites e fronteiras.
Ficou viúva pouco depois dos trinta anos, com dois filhos pequenos, tendo assumido a gestão dos negócios da família. Uma das suas primeiras decisões empresariais foi desfazer-se dos investimentos feitos pelo marido fora do mundo vinícola. Queria dedicar todos os seus recursos e energia ao negócio do vinho, em especial do Vinho do Porto. Dona Antónia inaugurou uma nova fase da Casa Ferreira que, liderada por esta mulher, conheceu um sucesso e crescimento sem precedentes. Com a sua notável vocação para os negócios, investiu a herança toda na terra, multiplicando-a e fazendo o Douro prosperar. Acabaria por se tornar na principal proprietária agrícola da região e numa das pessoas mais ricas do país da altura, sendo até hoje recordada como uma das maiores empresárias portuguesas de sempre. E nunca perdeu a noção de propósito e sentido, nem o amor ao Douro e às suas gentes, que a moveu desde o primeiro dia: empenhou-se ativamente no desenvolvimento da região, na melhoria de vida dos seus conterrâneos e dos seus trabalhadores e na ajuda aos mais carenciados.
Deixou uma vasta obra social que reflete uma rara combinação de inteligência, visão, força, humanidade, generosidade e coragem. O nome carinhoso de “Ferreirinha”, que viajou até aos dias de hoje, vem do reconhecimento de todos a esta mulher a quem a fibra da resistência nunca arrefeceu o coração. Alguém descreveu a nova ponte como sendo semelhante a um pássaro em voo sobre o Rio Douro. E como é do céu sobre o Douro que se trata, o nome da obra – que não foi imposto pelos gabinetes, veio das ruas e reflete a vontade do povo – é o de uma mulher sem medo, nascida para voar. Uma mulher que tinha tão grandes as asas, como fundas as raízes. Antónia Adelaide Ferreira: nome de voo e de ponte.


