Opinião: António Cândido, o Político que vencia qualquer questionário
António Cândido foi um grande ornamento da Universidade de Coimbra e do País na segunda metade do século XIX. Enlaçava, como poucos, o génio e a virtude.
Numa cerimónia que se pretende luzida, a Universidade de Coimbra vai homenagear o célebre catedrático de Direito, na próxima quarta-feira, na Sala do Senado, pelas 15 horas, em lembrança pela passagem do Centenário do seu Falecimento em 1922. Uma cerimónia que conta com o apoio da Presidência da República e da Assembleia da República.
Que ridente ficaria António Cândido se lhe houvessem proposto responder a um minucioso questionário para se aperceber se estaria ou não em condições para se habilitar ao desempenho de um cargo político. António Cândido dispensava, seguramente, qualquer questionário abonatório. Isto por uma bem simples razão. A existir um interrogatório, era ele quem o faria à sua própria consciência. E decerto ela responderia sem hesitação.
A ética de António Cândido, sendo ele monárquico, não se podia qualificar de republicana. A Primeira República elevou a valor cimeiro a Honra do Cidadão. Daí o juramento republicano pela Honra no ingresso em funções públicas. A Honra representava fiança suficiente.
À Primeira República se deve a criação, em coerência, dos chamados Tribunais de Honra. Eram constituídos por elementos das classes mais representativas da Honra Nacional, os militares, os magistrados e os membros dos clubes de esgrima.
Toda a vez que a Honra dos próprios tivesse sido maculada, ou o juramento de Honra tivesse sido quebrado, os Tribunais de Honra eram chamados a sancionar punitivamente ou a levar a cabo uma restitutio judicial da honra injustamente sangrada. A quebra de um juramento de honra podia perfeitamente ser criminalizada, com claras tipificações. E a prisão sempre assusta, mesmo os mais ousados.
António Cândido percorreu, com notável luzimento, os graus decisivos que conduziam ao cume da carreira académica de então. Os professores da Faculdade de Direito de Coimbra sempre se apressaram lentamente. Bem o sabem, senão na Sala dos Capelos ficam a saber melhor, que o tempo não perdoa àquilo que se faça sem ele.
Apesar desta divisa solene, o talento de António Cândido ofereceu-lhe um riscar quase meteórico nos céus agrestes da Faculdade de Direito de Coimbra.
Com o senhorio de um brilho extraordinário, foi um estudante de vastos pergaminhos na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Doutorou-se, com inexcedível êxito, em 1878. Assumiu a condição de Lente substituto em 1881, e, sem excessivas delongas e com muito honesto estudo, ascendeu, em 1891, a Professor Catedrático da Faculdade de Direito. Um lente que atingia a Cátedra, mal dobrados os 40 anos.
A liberdade, por vezes, amedronta-nos, quando não nos infunde um incontido terror. Assusta-me e assusta-nos pela assustadora razão que nos coloca diante do tempo e da nossa terrível responsabilidade de o viver bem. E aqui não se presta caução de bem viver.
A vida que hoje tendemos a viver contrasta com a de António Cândido. Entretece-se de momentos. Não poucos adoptam o lema: «a vida através do momento».
Ora, conforme sublinhou o Papa Francisco, a escravidão reduz o tempo ao momento e assim sentimo-nos mais seguros. Irrompem os momentos desligados do nosso passado e do nosso futuro. Diria que se trata de momentos soltos no tempo e que, em consequência, não nos compelem à coerência com um certo rumo.
Na Faculdade de Direito de Coimbra, António Cândido só tinha um direito. O de cumprir o seu dever. Como todos os lentes daquele tempo e de todos os tempos, peregrinou por diversas cadeiras. Do Direito Penal ao Direito Administrativo. Do Direito Eclesiástico ao Direito Político.
Ao longo do seu magistério, foi tocado, embora não sendo filósofo, pelas correntes de pensamento que então predominavam. Experimentou, sem rebuço, as influências do naturalismo e do positivismo. Realçou-o, do cimo do seu saber torrencial, o Doutor Luís Leite Ramos.
Não se encerrou António Cândido apenas na altiva e ebúrnea torre de contemplação universitária. Estimou a sua terra natal, Amarante, como poucos. Amarante, que amou sempre mais do que ontem e menos do que amanhã.
Como eu gostaria que os Universitários de Coimbra fossem todos da estirpe de António Cândido numa permanente devotio à Torre da Universidade de Coimbra e à Faculdade de Direito que a abraça. Alguns que lhe devem tudo, ao viajarem em carruagens mais rútilas, ao passarem a percorrer salas mais aveludadas, e a ocuparem postos mais vistosos e pingues, parecem ficar a olhá-la com incómodo nas ameias dos seus pequenos castelos feitos de areias movediças e de traiçoeiras ilusões.
O talento académico de António Cândido não se encontrava envolto em mistério. Era manifesto. Manifestou-se cedo e manifestou-se abundantemente. Desde logo nas obras que compôs. A elas transmitiu o sinal do seu espírito.
Os verdadeiros Mestres, como António Cândido, escreviam e escrevem livros para ensinar. Os que o não são escrevem livros para mostrar que aprenderam. Os que tencionam vir a ser escreverão livros, a galope e montados em cavalos alados, para cair nas boas graças da avaliação de desempenho.
Se, no século XIX, o Parlamento se subordinasse a um regime de avaliação do desempenho, estou convencido de que António Cândido faria pelo menos duas intervenções. Uma com o título «O Desassossego através do Ponto Pontuável». A outra versaria o tema «A Arte de Merecer o Máximo Merecimento».
A imagem da erudição de António Cândido como Mestre podemos extraí-la do estilo que emprestava às suas copiosas intervenções parlamentares.
Senhor de um pensamento que fulgurava sem parança, António Cândido viajava sem custo às regiões incógnitas da ideia.
Com uma retórica argumentativa poderosa e sempre bem entretecida e encadeada, o seu discurso, no Parlamento, como seria na Faculdade, resultava numa simplicidade de uma clareza melodiosa.
Não encontrei melhor forma de concluir esta homenagem senão chamando em meu socorro as palavras do próprio António Cândido pronunciadas em momento solene: «A glorificação pública de um Homem de génio é sempre um espetáculo que comove, um exemplo que edifica, uma lição que aproveita».


