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Opinião: “As alterações climáticas aprofundam as desigualdades sociais”

31 de às 11h42
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Os mais vulneráveis são os que mais sofrem as consequências das alterações climáticas (AC). Apesar destas nos afetarem a todos, são aqueles que menos contribuem para elas, os que mais são afetados e mais sofrem. A esse descompasso está subjacente a injustiça social, tanto mais grave quanto mais marcantes as diferenças das condições materiais de existência e a sua sobreposição com outras exclusões e marginalizações sociais em diversas áreas de vida.
O aquecimento global e as AC pela magnitude e gravidade das suas consequências, não afetam apenas o equilíbrio/desequilíbrio dos sistemas biofísicos, mas também e simultaneamente os sistemas sociais e os sistemas culturais. A nível biofísico é visível a destruição da natureza a nível da sua diversidade e saúde, com fortes impactos na disponibilidade e redução dos recursos naturais. A nível dos sistemas sociais as AC atuam destruindo a organização social, a habitação, o sistema alimentar, causando movimentos migratórios, perdas económicas, etc. Por fim a nível cultural e de forma mais invisível, atuam destruindo o sentimento de pertença cultural e as identidades individuais e coletivas. Se o impacto das mudanças nesses sistemas biofisicos é amplamente reconhecido, bem como nas economias o é cada vez mais, já nas componentes sociais e culturais não tem sido assim. O que confere complexidade acrescida aos desafios da emergência climática, na medida em que introduz no problema as diversidades contextuais, territoriais e das pessoas que neles vivem e com isso as desigualdades sociais.
Com as AC o risco de conflitos, desastres e deslocamentos internos, aumenta e isso vai aumentar as desigualdades e pobreza já existentes. Aos ‘velhos’ pobres juntam-se os ‘novos’ pobres, entre os quais temos todos os que são forçados a abandonarem os seus lares e seus territórios devido ao impacto dos efeitos das AC e até nisso a fuga é seletiva e desigual. Os mais vulneráveis são os mais velhos, as pessoas com deficiências e doenças mentais, as crianças, as mulheres, as minorias, e aqueles que maiores riscos correm, como as populações ribeirinhas, os povos indígenas, aqueles que vivem nas zonas mais degradadas das grandes urbes e aqueles que vivem em regiões do globo onde os impactos são uma realidade muito visível.
Devido ao aumento populacional e à impossibilidade de responder a uma procura crescente de alimento, à redução da sua disponibilidade e segurança, a fome é algo que tem vindo a aumentar e tenderá a gravar-se, conduzindo a mais vulnerabilidade, a mais doença, a mais conflitos e guerras.
A degradação das condições de vida e o aumento da frequência e intensidade de eventos extremos, desastres humanitários, movimentos humanos massivos, conduz à necessidade de preparar as sociedades e apesar de TODOS estarmos expostos, os mais vulneráveis são os mais desiguais das sociedades. As mulheres e os homens são impactados de forma diferente, os ricos e os pobres também, os emigrantes e os autóctones, e assim por diante.
Uma política de combate às AC tem necessariamente de ser uma política que começa por corrigir as desigualdades sociais. O combate às desigualdades sociais, à injustiça económica, de género, étnica, racial, é a base para que se possa atingir a justiça ambiental e se possa atuar nas causas e consequências das AC.
A transição ecológica requer políticas mais ambiciosas que apostem na transição societal nas suas múltiplas dimensões. As mudanças devem por isso ser profundas, transformadoras e trazer TODAS as vozes, independentemente das suas diversidades culturais, da sua condição social, género, país de origem, e trazer TODAS as formas de conhecimento.

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