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Opinião: As ideias continuam, para lá do fim e do fogo

13 de às 11h30
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Esta semana assinalaram-se 90 anos do dia em que a secção de propaganda da Associação de Estudantes Alemães reuniu milhares de universitários para o “Ato nacional contra o espírito não-germânico”, um ritual de queima conjunta de livros, considerados “antigermânicos”, que tinha como finalidade “limpar” e “depurar” a literatura. Um pouco por toda a Alemanha, milhares de obras foram queimadas. Nesse ano, Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, iniciou um movimento de “sincronização da cultura”, para alinhar as Artes com a ideologia nazi, que começou com a expulsão daqueles que eram politicamente desalinhados (maioritariamente judeus) das organizações culturais. Havia uma força ultranacionalista e antissemita com origem em organizações de estudantes que, no final da Grande Guerra, encontraram no Nazismo abrigo para a insatisfação com a República de Weimar. Esses estudantes estiveram na origem destas queimas de livros. A História consegue ser irónica. Só em Berlim, terão ardido entre 20.000 e 25.000 livros, à mão de universitários.
Várias queimas reuniram milhares de estudantes, em mais de 30 cidades alemãs, num ritual com desfiles, discursos de oficiais e académicos, música e juramentos ideológicos, para além de grandes fogueiras para onde eram atirados livros não recomendáveis, em “protesto” contra o “espírito não-alemão”. A ação, com grande cobertura jornalística, inaugurou uma era de censura política, mas também cultural e de manipulação ideológica das Artes, na Alemanha.
Naquele dia foram queimados autores como Marx, Stefan Zweig, Brecht, Hemingway, Helen Keller, Thomas Mann, Freud ou Erich Maria Remarque, simplesmente porque não agradavam aos nazis. Lemos e quase não acreditamos. Parece que foi noutro mundo e noutro tempo. Mas foi aqui, na nossa Europa, há menos de 100 anos. E porque a História consegue ser irónica – e é uma vizinha sempre a rondar-nos a porta – recentemente vimos rebentar uma polémica no Reino Unido, onde as editoras estão a reescrever algumas das obras de Enid Blyton, autora que tem iniciado milhares de crianças e jovens pelos caminhos da leitura e dos livros. As obras de uma das escritoras mais queridas do Reino Unido (e do mundo) – das mais traduzidas universalmente – estão a levar uma “atualização”. Deve-se à “linguagem desatualizada e ofensiva”, justificam-nos. E, então, lembramo-nos de todas as vezes que quiseram “limpar” e “depurar” a literatura. Algumas bibliotecas passaram a disponibilizar apenas as “versões atuais” das obras de Blyton, armazenando as originais em espaços não acessíveis ao público, com medo de “ofender os leitores”. Lemos e não acreditamos. Parece noutro mundo e noutro tempo. Mas é aqui, na nossa Europa, hoje, agora. A História é uma vizinha sempre a rondar-nos a porta. E os livros são, também, provas da história da Humanidade. Através deles conhecemos quem somos e como chegámos aqui – eles têm, também, esse papel testemunhal, de salvaguarda da memória. Não podemos rescrever o passado, mas podemos e devemos escrever um futuro que mostre que aprendemos a lição. Se necessário, voltamos aos livros para rever a lição. Mas que faremos quando os livros ardem?
Em 1995, o artista israelita Micha Ullman criou um monumento na Bebelplatz, em Berlim, em memória dos livros queimados. Passa quase despercebido, como acontece com muitos dos perigosos e perversos movimentos de censura, que chegam de mansinho, introduzindo-se sinuosamente, e vão criando raízes fundas, debaixo da terra, alimentados pela distração à superfície. É um espaço subterrâneo, cúbico, que pode ser visto através de um alçapão de vidro, aberto no chão da praça. No interior, vemos um espaço amplo com estantes vazias: as suficientes para arrumar os cerca de 20.000 livros que terão sido queimados, ali, há 90 anos. É o que sobra quando a Arte falta: vazio. Helen Keller, autora de algumas das obras queimadas pelos nazis, escreveu numa carta aberta aos estudantes alemães: “a História não vos ensinou nada se acham que podem matar ideias”. Os livros ardem até ao fim. Mas as ideias continuam, para lá do fim e do fogo. As ideias e a memória não se queimam – e é com ambas que preenchemos o vazio.

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