Opinião: As universidades e a investigação
Para muitos jovens, a colocação no ensino superior coroa uma jornada de longo e honesto estudo para alcançarem o acesso à formação que os preparará para a vida ativa. No entendimento de muitos (estudantes, famílias e até decisores políticos), a principal missão do ensino superior é formar profissionais munidos de elevados conhecimentos, capazes de desempenhar profissões mais exigentes do ponto de vista técnico ou cognitivo.
Contudo, o mundo que nos rodeia é estranha e perigosamente diferente daquele em se formaram as gerações anteriores, para as quais o curso superior consistia da aprendizagem de conhecimentos acessíveis a poucos, e que abriam automaticamente a porta a cargos bem remunerados, apenas ao alcance de quem sabe.
Hoje, o conhecimento está felizmente à mera distância de um clique e qualquer um pode ter acesso a todo o tipo de conteúdos e informação, incluindo de altíssima qualidade, através dessa extraordinária rede mundial de colaboração estabelecida pela internet.
Para que servem então as universidades nos dias de hoje? Seguramente não servem apenas para ensinar, embora continuem a ser estruturas importantes para a transmissão do conhecimento. Mas as universidades que se limitam à docência nem para ensinar servem e estão já mortas, ainda que porventura ainda mexam. É que hoje, mais do que em alguma época da história, mais crucial do que transmitir conhecimento é saber distingui-lo. Num mundo em que o conhecimento está na rua (ainda que cibernética), é absolutamente vital saber separar conhecimento fidedigno de meras bagatelas ou, pior, de informação falsa ou enganosa. Vital, não apenas paras as aplicações técnicas ou profissionais em mudança voraz, mas também para a própria convivência social, a nível local ou planetário. Não é hoje possível exercer plenamente a cidadania sem saber distinguir informação de confiança de “fake news”, modelos com sustentação empírica e racional de teorias de conspiração.
As universidades assumem aqui um papel determinante na formação das gerações futuras, transmitindo mais do que o próprio conhecimento: critérios claros para a construção do conhecimento e para determinar o grau de confiança que a mais fútil das afirmações merece. Tal só é possível se os docentes estiverem profundamente envolvidos na produção de conhecimento, através da investigação científica. Só assim poderão transmitir plenamente às novas gerações a confiança e os critérios para decidir em quem e no quê acreditar.
A investigação científica é assim, ao contrário do que julgam alguns decisores políticos crescidos num passado que já não existe e que medem o valor das coisas apenas em cifrões, uma atividade essencial em qualquer universidade, sobretudo nas democracias liberais onde se exigem cidadãos civicamente ativos.
O mito de que a investigação (e, sobretudo, os recursos humanos e financeiros que esta exige) deve estar reservada a algumas instituições privilegiadas e docentes excecionais não é hoje admissível. O nosso futuro coletivo passa decisivamente por aí.


