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Opinião: Bola “prá” Sereia

26 de às 10h52
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O Jardim de Santa Cruz ou da Sereia, como ficou popularmente conhecido em Coimbra, é uma das pérolas desta cidade e do qual a cidade teima em não se apropriar devida e definitivamente, apesar da sua história secular e da sua beleza arquitetónica, escultórica, azulejar e paisagística.
Uma das memórias que guardo da minha juventude remonta ao mítico “Festival Só Rock”, realizado entre maio e julho de 1981 no Jardim da Sereia. Este evento foi uma iniciativa da Rádio Comercial, no âmbito do programa “Rock em Stock” do inigualável Luís Filipe Barros e que contou com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra e da empresa conimbricense, de som, “Furacão”.
A vida dá voltas e voltas e, vinte e dois anos depois do “Festival Só Rock”, a minha atividade profissional leva-me ao Jardim da Sereia.
Em 2003 tenho a oportunidade de integrar a equipa municipal, que durante alguns meses interagiu com o arquiteto japonês Toyo Ito, que desenhou a galeria “Serpentine” nos Kensington Gardens, em Londres, na perspetiva que Toyo Ito fosse o responsável pelo projeto de requalificação do espaço, devolvendo-o aos conimbricenses de forma mais segura e mais atrativa à sua fruição.
Por vários motivos este projeto, de requalificação do Jardim da Sereia, não viu a luz do dia. Caso tivesse sido intervencionado da forma como foi apresentado à Câmara Municipal, em pré-projecto, tenho a certeza que Coimbra teria hoje um jardim que ombrearia com os melhores jardins urbanos do mundo.
“Se bem me lembro”, ao longo das últimas décadas, o Jardim da Sereia somente foi objeto de requalificações pontuais de maior ou menor dimensão, foi o caso da recuperação do pavimento, do reforço e recuperação dos sistemas de drenagem de águas pluviais, da recuperação dos torreões, do jogo da pela e da cascata de três corpos, da adaptação da antiga casa do guarda e sanitários públicos a casa de chá, da substituição dos bancos de jardim e papeleiras, da reabilitação parcial da iluminação, da grande manutenção arbórea e arbustiva realizada na véspera da comemoração do Dia da Cidade de 2011 e dos trabalhos de limpeza e manutenção do património arbóreo decorrentes dos fenómenos climatéricos extremos entre 2018 e 2020.
No que respeita a conteúdos, de lazer ou culturais e criativos, para além da casa de chá, somente foi efetuada a instalação artística “O mundo fica em silêncio” da autoria de Rui Chafes, no âmbito da exposição “Ao Espelho da Sereia”, realizada no verão de 2011, por iniciativa da Câmara Municipal e do CAV.
O Jardim da Sereia precisa de mais, de muito mais.
Precisa de um trabalho que o devolva definitivamente aos cidadãos e que seja suficientemente arrojado para ombrear com os grandes jardins históricos nacionais e internacionais, mesclando a sua característica de jardim histórico com o século XXI.
Carece de entre outras ideias, da reabilitação/reconstrução da rede de abastecimento de água tradicional que se inicia na Fonte da Nogueira, onde se localiza o decapitado Tritão, aproveitando o braço da mãe de água que aí brota, garantindo o regular e normal abastecimento de água ao grande lago, aos repuxos das taças de água localizadas nos patamares intermédios da escadaria, ao grande repuxo e grande taça de água junto à cascata e, ainda, do seu aproveitamento para a rega de manutenção do jardim, anulando a rega que hoje é realizada a partir da água de abastecimento público. Precisa de equipamentos como: parques infantil, juvenil e geriátrico, precisa que se reabilite o decrépito espaço de merendas, precisa de manutenção e/ou substituição de espécies arbóreas e reintrodução de novas, precisa da reconstrução do bucho, no seu desenho original, junto aos bustos do Mestre Cabral Antunes e do poeta Camilo Pessanha, precisa de manutenção dos torreões, dos muros e do jogo da pela, precisa da manutenção/reabilitação das cantarias e azulejos, precisa que o grande lago seja reabilitado, precisa que da fonte central do grande lago volte a jorrar água, precisa que o lago seja fruído pelos cidadãos, precisa de luminotecnia que, a partir de fontes renováveis de energia, realce a sua beleza e aumente a sua segurança.
Necessita ainda, de mais conteúdos culturais e criativos e de lazer, que atraiam os cidadãos a desfrutar daquele espaço e a apropriar-se dele como seu.
Coimbra precisa da Sereia e a Sereia precisa que Coimbra a requalifique.
A Sereia e Coimbra precisam de um Plano Geral de Reabilitação do Jardim de Santa Cruz.

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