Opinião: Bússola: o que esperar até ao final de 2023?
Passado que está o marco que indica o meio da viagem, o que esperar até ao final de 2023? Quando em novembro do ano passado, a Comissão Europeia apresentou as suas projeções económicas, o cenário para 2023 era tudo menos animador: com a instabilidade provocada pela invasão russa, estimava-se que o PIB português crescesse apenas 0,7% em termos reais. Contudo, em fevereiro o número foi revisto em alta, para 1%. Já em maio – depois de conhecidos os dados do primeiro trimestre – a CE mais do que duplicou a sua projeção de crescimento para a economia portuguesa em 2023, que está agora nos 2,4%. Se olharmos para as previsões do FMI, a tendência é ainda mais vincada: em outubro do ano passado esperava que o PIB português crescesse apenas 0,7% em 2023, em abril deste ano apontava para 1%, e em maio subiu para os 2,6%. Este número é confirmado pelo Boletim Económico de julho do Banco de Portugal, com a projeção de 2,7%. A conclusão é clara: salvo alguma hecatombe, a economia portuguesa vai crescer este ano bem acima do que se esperava. Ainda assim, vai abrandar – e muito – face ao crescimento verdadeiramente extraordinário de 6,7% em 2022.
Quererá isto dizer que está afastado o cenário de recessão que afetou a Europa no primeiro semestre? Estará o copo meio cheio ou meio vazio?
Por um lado, os próximos meses apresentam ainda muitas incertezas: a instabilidade da situação na Ucrânia; a pressão inflacionista e a consequente subida das taxas de juro imposta pelo BCE. Em Portugal somam-se as tensões políticas, sociais e os “velhos” problemas de produtividade: estamos na 23ª posição no PIB por empregado ( 75,4% da média da U.E., abaixo do valor de 76,4% em 2019 ) e na 24ª no PIB por hora trabalhada ( 66,8% da média europeia ).
Pelo lado positivo, vejo uma janela de oportunidades que se abre às empresas nacionais no âmbito da abertura (finalmente, após meses de atrasos) de avisos no âmbito do Portugal2030. Este vasto programa visa aplicar 23 mil milhões de euros dos fundos europeus em projetos que estimulem e desenvolvam a economia portuguesa até 2027. Está lançado este novo ciclo de fundos europeus que, se bem aproveitados, poderão contribuir para o desenvolvimento e a transformação no tecido económico nacional. Este ciclo deverá consolidar a alocação de recurso às áreas da investigação e desenvolvimento (I&D), qualificação e internacionalização.
O desafio está agora do lado das empresas: apresentarem projetos e investimentos que sejam verdadeiramente transformadores da sua capacidade competitiva. Em cima da mesa estão oportunidade para que as empresas aproveitem a transformação digital e adaptem os seus modelos de negócio, aplicando ferramentas de produção e de apoio à gestão, novos canais e meios digitais. Quem ainda não se ajustou às mudanças, desde o teletrabalho ao “tele-tudo”, tem agora uma oportunidade que não pode deixar passar. Outro eixo de mudança é a sustentabilidade, que no Portugal2030 é muito mais do que uma buzzword, é uma prioridade bem vincada: no que concerne à circularidade dos recursos, à transição energética mas também aos novos métodos e processos que reduzam a pegada de carbono.
Mãos à obra, que já só temos 6 meses até ao final deste ano!


