Opinião: C/2022 E3, o cometa com uma anti-cauda
A 2 de março de 2022, descobriu-se um aparente asteroide candidato a objecto próximo da Terra. Dias depois, cinco equipas diferentes observam a formação de uma coma cometária (cabeleira) à sua volta, fazendo-o assim um cometa, agora designado por C/2022 E3 (ZHF). A 12 de janeiro passou pelo seu ponto mais próximo do Sol, o periélio, e, já a afastar-se do Sol, a 1 de fevereiro passará a pouco mais de 42 milhões de quilómetros da Terra. Numa estimativa muito grosseira, este cometa poderá ter tido a sua anterior passagem há cerca de 52000 anos.
Graças aos trabalhos pioneiros de Fred Whipple, nos anos 50, que sabemos que os cometas são essencialmente bolas de gelos e poeiras, embora à luz do conhecimento de hoje fosse mais correto dizermos bolas de poeira com gelos, pois as poeiras são mais dominantes. Quando estão a menos de 5 vezes a distância da Terra ao Sol — os tais cerca de 150 milhões de quilómetros a que chamamos de unidade astronómica — os gelos começam a evaporar (em rigor, a sublimar, ou seja a passarem diretamente do estado sólido para o gasoso) libertando as poeiras que neles estavam presa s, poeiras essas que, por refletirem a luz do Sol, brilham numa cauda esbranquiçada.
Aprendemos na escola que os cometas formam uma cauda que aponta na direção oposta ao Sol e não na direção oposta ao deslocamento do cometa. Tal acontece por causa do chamado vento solar, uma permanente ejeção de partículas carregadas eletricamente e muito energéticas a velocidades da ordem dos 400 quilómetros por segundo, vindas do Sol, e por causa da pressão da radiação solar, pois a radiação eletromagnética, a luz, cria uma leve pressão que se faz sentir muito nas partículas de poeira mais pequenas.
Na verdade, os cometas criam duas caudas, uma de poeiras e outra de iões, ou seja de moléculas vindas dos gases mas com carga elétrica. A de iões, tipicamente azulada, é bem mais difícil de ver. Porém, por vezes os cometas mostram uma anti-cauda, ou seja uma cauda que aponta na direção do Sol, e o E3 é um deles. A anti-cauda consiste nas poeiras de maiores dimensões — menos sensíveis à pressão da radiação solar e por isso menos empurradas para fora — que o cometa deixa ao longo da sua órbita. Em função da configuração Sol-cometa-Terra, por vezes ficamos com uma perspectiva tal que essa cauda parece apontar para o Sol, mas na verdade não está, como se pode ver na imagem.
O C/2022 E3 é muito ténue e só com binóculos, ou telescópios, o conseguimos ver de forma a percebermos que é um cometa. Mas não percam a oportunidade de o fazer, longe das luzes da cidade, lembrando-se que com apenas três paus e muita fita cola se consegue fazer um tripé para uns binóculos. Não esperem ver a cauda em todo o seu esplendor, mas poderão perceber que, contrariamente às nítidas estrelas, o cometa se mostrará envolto numa leve bruma.


