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Opinião: Com a verdade me enganas

13 de às 10h55
1 comentário(s)

Em Portugal, instalou-se o conceito de que um bom político é aquele que usa argumentação convincente para enganar o povo. É o mais astuto, que transforma falhas em sucessos, que possui um “parlapié” necessário para iludir o povo e deixar os adversários sem resposta, mesmo que seja necessário utilizar a demagogia, e o jogo de palavras e dos números…
Os Cuidados de Saúde em Portugal atingiram, na minha opinião, um nível crítico, o nível mais baixo dos últimos 30 anos. Aquilo que há alguns anos seriam temas de aberturas de telejornais, são hoje normalizados pelos governantes e pelo povo: Maternidades que encerram, grávidas deslocadas de um lado para outro, serviços de urgência fechados ou sem médicos, ambulâncias paradas horas sem fim à porta de hospitais, medicamentos banais esgotados nas farmácias por períodos de tempo prolongados, queixas permanentes do atendimento pré hospitalar, etc…., etc… É difícil achar que podemos ficar pior, mas calma, que ainda é possível, e pelo “andar da carruagem” lá chegaremos…
O mais preocupante neste assunto, é a forma como alguns governantes procuram “vender” a imagem do contrário. A estatística, deveria ser uma ciência objectiva de analisar resultados, e não uma forma falaciosa de apresentar resultados verdadeiros, mas que não espelham a realidade, porque estão deturpados naquilo que é o objecto de análise. Senão vejamos: é constantemente referido que na maioria dos hospitais e centros de saúde do SNS, o número de consultas tem vindo a aumentar…, mas ninguém refere ou informa os cidadãos de que em anos anteriores eram apenas contabilizadas as consultas médicas, e que actualmente estão a ser também contabilizadas as consultas de enfermagem em diversas áreas clinicas em centros de saúde e hospitais. Na verdade, o número total de consultas médicas não aumentou, até diminui em muitos hospitais e centros de saúde. E mesmo no que diz respeito às consultas médicas, no passado eram contabilizadas apenas as consultas em presença física, actualmente são contabilizadas também as teleconsultas (consultas telefónicas) que muitas vezes são breves conversas de poucos minutos entre o médico e o doente, sem exame físico, sem observação de exames complementares, enfim… Tudo serve para usar os números em pró daquilo que se pretende demonstrar, mesmo que a realidade seja diferente…
Ouvimos muitas vezes afirmar que os tempos de espera para cirurgia diminuíram. Os doentes sabem por experiencia própria que na maioria dos casos tal não corresponde à verdade. A “limpeza” efectuada nas listas de espera para cirurgia, de onde foram retirados doentes que estavam à espera de cirurgia no SNS, mas que já tinham sido operados no privado, ou até doentes que já tinham falecido, permitiu encurtar listas de espera sem que tal signifique que o tempo de resposta cirúrgica esteja melhor na actualidade. Por outro lado, cada vez mais doentes perante um problema de saúde, recorrem ab initio ao sector privado para consultas e cirurgias, não chegando sequer em entrar em lista de espera, contribuindo para que estas não aumentem, não por capacidade de resposta, mas por diminuição na procura. É preciso analisar a realidade de forma honesta do lado do doente. Nunca tantos doentes tiveram seguros de saúde ou subsistemas em Portugal (mais de 50% da população) e nunca tantos doentes recorreram ao sector privado para resolução dos seus problemas de saúde.
O problema de Portugal é que, em muitos casos, quem nos governa não está a mentir nos números que apresenta, mas também não está a falar a verdade naquilo que é a real operacionalidade do Sistema de Saúde, naquilo que é a resposta que os cidadãos precisam. A isso chama-se fazer politica? Não, a isso chama-se ser artista… Um bom político deveria ser aquele que manifesta uma boa estratégia para governar e não uma boa estratégia para ganhar votos…
Gostava de um dia poder morar no país que alguns governantes dizem conhecer e governar…
Não é seguramente aquele onde vivo…

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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1 Comentário

  1. Poortugues diz:

    Muito do que diz é verdade mas não são os médicos os primeiros responsáveis pelo aumento das listas de espera, ao estarem a trabalhar no privado nas mesmas horas em que estão a ser pagos para estar no público a diminuir estas listas de espera?
    Não são muitas operações privadas feitas pelos médicos, alugando salas de hospitais públicos (quando estarão a receber tambem do público para estarem a trabalhar à mesma hora?

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