Opinião: Cometa Desconhecido… ou Visitante de Outra Estrela
No mês passado escrevi sobre a missão Comet Interceptor (CI), que tem como objectivo estudar um Cometa Novo. Estes objectos “nasceram” com os planetas Júpiter e Saturno há 4,5 mil milhões de anos, tendo sido ejectados para os limites do sistema solar, onde permanecem em hibernação. De longe a longe, vão “caindo” para o Sol, onde aquecem e se transformam em cometas espectaculares. Por terem estado congelados desde a formação, retêm gelos de substâncias altamente voláteis (por exemplo, monóxido e dióxido de carbono) que produzem caudas verdadeiramente impressionantes ao sublimar sob o calor do Sol. Exemplos recentes incluem os cometas Hale-Bopp (1997), McNaught (2007) e Lovejoy (2011).
A chegada destes cometas é imprevisível. No início deste ano foi descoberto o cometa C/2023 A3 (Tsuchinshan-ATLAS), que vem a caminho, e que atingirá o seu ponto mais brilhante (maior aproximação ao Sol e à Terra) em Outubro de 2024. Este intervalo de menos de dois anos entre a descoberta e a aproximação à Terra não é suficiente para preparar uma missão, conceber e construir a sonda, lançá-la e chegar a tempo ao cometa. Assim, um grupo de cientistas liderado por colegas meus – o galês Geraint Jones e o escocês Colin Snodgrass – imaginaram uma solução tipo atalho: preparar e lançar a sonda com antecedência, colocando-a já no espaço à espera que se descubra um cometa para visitar. Assim que o cometa seja identificado, o tal intervalo de um ou dois anos é suficiente para o interceptar.
É esse o truque da missão CI, que será lançada em 2029. Até lá, uma equipa de cientistas da qual faço parte, vai estudar o problema de preparar uma visita a um cometa desconhecido. Em traços gerais, precisamos de desenvolver um método para descobrir um cometa interessante e passível de ser visitado. Peça essencial neste processo será o telescópio LSST, com mais de 8 m de diâmetro, que está a ser construído no observatório Vera Rubin no Chile, e que será usado na busca. No entretanto, temos que aprender a decidir se um pontinho de luz débil que o LSST venha a detectar acelerando em direcção a nós é o alvo que almejamos.
Possibilidade remota mas muito interessante é que o tal pontinho de luz seja um objecto interestelar – um visitante de outra estrela. Se tivermos essa sorte e estivermos preparados para a identificar a tempo, a Comet Interceptor irá visitar de perto um objecto ainda mais raro e misterioso. Os curiosos cientistas agradecem!


