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Opinião. “Como o tempo passa”

18 de às 09h30
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“Como o tempo passa” é o nome de um dos mais belos e secretos romances do século XX. De Robert Brasillach, de obra e vida breve (fuzilado no pós guerra por colaboracionismo, não obstante os apelos de Sartre e de Malraux). Romance que, no capítulo A noite de Toledo, contém algumas das mais fulgurantes páginas sobre o amor erótico.
E, no entanto, como lucidamente observou Eduardo Lourenço, o tempo não passa. Somos nós que passamos pelo tempo.
Viver com a percepção aguda do passar do tempo significa existir na prisão de um quotidiano acelerado. Uma vida dominada pela exaustão do trabalho e do consumo é uma vida existencialmente breve, ainda que cronobiologicamente longa.. Uma vida sem densidade, sem profundidade, sem miradouros nem âncoras. Uma vida que reduz o ócio a um circular “matar do tempo”. Uma vida que desliza rápido na clepsidra do corpo.
O tempo não passa. Somos nós que não vivemos.
Peter Handke, no Poema à duração, na esteira de Hannah Arendt (ela mesma em declinação do Heidegger tardio), vê na eternidade dos instantes mágicos – o acenar a um filho no autocarro escolar que se afasta, o iluminar súbito de um rosto amado, o zumbido das abelhas num fim de tarde estival, o enovelar silencioso dos enamorados – o antídoto da corrosão dos corpos.
Não é o estar “ ligado à corrente” do trabalho e do consumo que nos torna especificamente humanos. Ser um puro “animal laborans” não é destino particularmente exaltante.
O que nos torna especificamente humanos é a prática do ócio, o mergulhar no espanto contemplativo, o balanço entre o “dolce far niente” e a contemplação ativa. A lentidão e não a aceleração. O sabor das coisas e não a função dos objetos. O deslumbramento e não a performance. E a festa.
Somos feitos para a festa. É a dimensão lúdica, ao lado do amor ( e não a razão), que define a natureza humana, como Pier-Vincenzo Piazza esclarece no magnífico “Homo biologicus “.
Não somos, não devemos ser, não temos que ser velozes. A velocidade é atributo ideal das máquinas. Não somos, não devemos ser, não temos que ser máquinas.
A velocidade gasta-nos, desgasta-nos, envelhece-nos. A velocidade é a antecâmara da morte.
Viver é existir na duração. O que Ruy Belo, na concisão que apenas a poesia permite, registou de modo definitivo, em Orla marítima:
“Somos crianças feitas para grandes férias”.

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