Opinião: Competências insubstituíveis
Numa imagem que circulou recentemente nas redes sociais, lê-se, numa tela exterior de um edifício em construção: “Ei Chat GPT, conclui este edifício…”. Esta provocação às novas tecnologias e, em particular, à Inteligência Artificial (IA), partiu de uma agência de emprego belga, especializada em trabalhos técnicos para a construção civil e que pretendeu chamar a atenção para o facto de as competências dos trabalhadores deste ramo serem insubstituíveis.
Nos últimos meses, principalmente desde o lançamento do ChatGPT em novembro do ano passado, temos assistido a um debate aceso em torno da IA, essa capacidade de uma máquina desempenhar funções cognitivas e simular o comportamento humano. Este debate, em várias vertentes, tem incidido bastante nas preocupações da sociedade com o avanço destas tecnologias, especialmente quando se aborda o impacto que podem vir a ter no mercado de trabalho.
A discussão em torno deste impacto da tecnologia não é nova. No livro de 2015 “Rise of the Robots”, Martin Ford aborda a tecnologia e a ameaça de um futuro sem emprego, examinando seu impacto no mercado de trabalho e na economia, argumentando que estas estão a substituir e a deslocar empregos, numa escala sem precedentes. E que isto sucede não só em tarefas manuais ou repetitivas, mas também em funções intelectuais, antes consideradas seguras, o que pode conduzir a desemprego estrutural e instabilidade económica.
Sabemos que, historicamente, a tecnologia sempre contribuiu mais para criar novos empregos do que para os destruir, sobretudo trabalhos qualificados. A automatização de determinadas tarefas requer novas competências e a sua implementação implica conhecimento especializado em diversas áreas (da programação ao desenvolvimento, da manutenção à gestão de sistemas). E é indiscutível que a IA pode complementar as nossas capacidades através de uma colaboração homem-máquina que aumente a produtividade com a realização de tarefas complexas, incluindo a análise de grandes quantidades de dados e o suporte à tomada de decisão.
É compreensível este medo de perder o emprego para sistemas automatizados. Não haverá outra forma que não a sociedade se preparar para esta nova realidade, com as necessárias mudanças no mercado de trabalho. As políticas públicas também terão um papel fundamental neste contexto, com governos, empresas e sociedade a desenvolver estratégias que garantam uma transição mais suave para esta era de automação e IA.
Alguns cientistas, como o matemático e informático Alan Turing, imaginaram um futuro em que as máquinas poderiam desempenhar funções de forma mais rápida do que os humanos, o que acabou por se tornar uma realidade, talvez mais cedo do que esperávamos, com as máquinas a adquirir capacidades que anteriormente eram da nossa exclusiva competência.
Nunca seria possível ter ido tão longe sem evolução tecnológica e, no entanto, apesar da utilidade aparentemente inquestionável da tecnologia, há muito que, de alguma forma, se temem as máquinas – mais especificamente, a possibilidade de poderem um dia adquirir inteligência humana – o que nos faz encará-las com um misto de fascínio e de medo.


