Opinião: Corvos e ciprestes
Algures num passado longínquo, num liceu de Coimbra, aprendi que, na literatura, as menções a ciprestes e a corvos prenunciam normalmente algo de negativo, estando associados a má sorte, morte ou escuridão. De todas as coisas que poderia ter guardado, o meu cérebro escolheu esta informação, que mais tarde, na Bélgica, se revelou contraditória.
Os corvos, animais necrófagos, são constantemente associados aos contos de feitiçaria e bruxaria, portadores de mau agouro, azar e outros elementos sombrios. Os ciprestes, para além de ornarem cemitérios, para gregos e romanos, estariam em comunicação com as divindades do inferno.
Ambos estes sinais literários de mau presságio estão em todo o lado na Bélgica, portanto não vale a pena manter a superstição. Há sempre dois lados de uma história!
Os corvos são considerados excelentes cuidadores da natureza, comendo cadáveres de outros animais, e assim evitando a disseminação de doenças. Aliados dos agricultores, são também predadores de outras espécies que destroem as culturas. Na cidade, além de afugentarem o pombo comum (entre melros e pardais), são também capazes de espalhar lixo, se este não estiver bem acondicionado… Esta ave de um preto profundo seria mesmo, na mitologia, um símbolo de proteção, regeneração, mensageira de boas energias.
O cipreste, árvore conífera típica do hemisfério norte, também se chama por cá árvore da vida. A sua longevidade e verdura persistente estarão na origem da reputação auspiciosa.
Se no início não simpatizei com estes dois elementos constantes no país, aprendi com o tempo a ver a sua beleza e o lado positivo na presença de corvos e ciprestes na Bélgica.


