Opinião: Criação de leões
A polémica criação comercial de leões em cativeiro na África do Sul voltou ao debate público após a detenção no aeroporto internacional de Joanesburgo de um homem com cinco carcaças deste animal na sua bagagem, no mês passado, quando tentava embarcar num voo para o Vietname, país onde os ossos de leão são usados na medicina tradicional.
Na África do Sul, os leões têm sido criados intensivamente em cativeiro para fins comerciais desde a década de 1990, sendo explorados como atração turística ou até em caçadas de “troféus” milionárias.
Esta indústria fornece também os grandes mercados da medicina tradicional sul-africana e internacional, particularmente asiático, onde as ossadas são muito procuradas para “vinhos” e “tónicos” como substituto dos ingredientes de tigre, segundo os investigadores Neil D’Cruze e Jennah Green das universidades de Oxford e Manchester, que trabalham na conservação animal na África do Sul.
Existem pelo menos 8.000 leões em 350 cativeiros comerciais no país. Em contraste, a população selvagem atual ronda os cerca de 3.500 leões, segundo os investigadores.
Todavia, adiantam que a fiscalização dos cativeiros é difícil por falta de um sistema nacional centralizado e transparente. Acresce ainda que a exportação de ossos de leão é regulada pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens (CITES), que desde 2019 impôs uma quota zero após um tribunal sul-africano ter considerado a prática “inconstitucional”, proibindo a exportação e ilegalizando a criação comercial de leões em cativeiro.
Nos últimos anos, vários cientistas, líderes tradicionais e especialistas em conservação animal no país têm sublinhado que a criação em cativeiro não contribui para a conservação da espécie, e o Governo já anunciou a intenção de encerrar os cativeiros, mas a prática persiste. É que se estima que a contribuição desta atividade para a economia sul-africana seja na ordem dos 500 milhões de rands anualmente.


