Opinião: Criatividade Artificial : estupefação e ousadia !
Em 1970, Masahari Mori, professor do Instituto de Tecnologia de Tóquio criou um conceito que cunhou como “uncanny valley” ( vale da estranheza !) para descrever o modo como um observador humano evoluia em termos de aceitação do outro, muito concretamente na sua interação com robots. Basicamente, o que se detetou foi a existência de um primeiro momento de aceitação e até crescente interação, porém, no momento em que as semelhanças se acentuam, a pessoa começa a reagir negativamente à “empatia” até quase à rejeição. Num momento final da experiência, dá-se uma espécie de síntese que conduz a uma interação pacífica e mesmo duradoura.
Sem usar o caso concreto de um qualquer robot antropomórfico, mas simples analogia com uma “inteligência artficial” da atualidade, podemos dizer que está já a acontecer algo de muito similar.
Nos últimos quatro anos a evolução dos “Transformers” enquanto plataformas de inteligência artificial, estão a mudar a forma e o sentimento com que interagimos com softwares que implementam e desenvolvem funções criativas, algo que muitos considerariam ser uma faculdade de nível superior exclusiva do ser humano. Note-se que estamos a falar de funções criativas e não de sentimento como resultado de atos artísticos.
O contacto com estas “entidades criativas” está a gerar uma segunda “revolução copernicana” onde o homem, uma vez mais se confronta com a ideia de não ser o centro do mundo, e que, mesmo através de atos próprios e inteligentes – criação de “software que faz software” ou se quisermos de “máquinas de fazer máquinas”, neste caso “criativas”, em áreas como a escrita, música, pintura ou vídeo, recoloca a questão da hipótese antropocêntrica como justificação da evolução dos ecosssistemas e da própria vida sobre a terra.
Quando no início do passado mês de Setembro, o júri do “Colorado State Fair” (Feira de Arte) atribuiu o prémio da categoria de arte digital a Jason Allen com a obra “Théatre D’opéra Spatial”, estava longe de saber o “tumulto” gerado nos meios artísticos mundiais. Efetivamente, o trabalho que reflete paisagens lunares e extraterrestres etéreas, com imponente e impressionante cenário de ópera, é uma obra sensacional, resultante de um híbrido entre ousadia e talento humano ( Allen é um inveterado programador de jogos ) exponenciado pela plataforma de criatividade artificial cujo nome é “midjourney”. Sugestivo!. De facto, esta parece ser uma “meia-jornada” na produção de obras conjuntas entre humanos e algoritmos, capaz de provocar uma reflexão sobre os tempos atuais, de aproximação ao trabalho de interação da cognição humana como expressão e produção de outros sentimentos e amplificação da consciência.
Como área suprema de intervenção societal a arte, sempre a arte, agora também através do digital e dos algoritmos, continua a motivar e a convocar a genialidade humana para a discussão e aceitação de outros futuros.
E sobre talento humano/algorítmico e a capacidade de enfrentar a modorra, nada que Duchamps não ousasse há um século atrás. “A fonte” afinal, era um “ready made” a partir de um urinol.


