Opinião: De Sicó à Sé Velha. Uma viagem atribulada
No ano de 2008 tivemos a oportunidade de, com a então Divisão de Espaços Verdes e os à data Serviços de Higiene Urbana da Câmara Municipal de Coimbra, apoiar o transplante de uma Oliveira milenar, da Serra de Sicó, no Concelho de Ansião, para um pequeno pátio exterior à Igreja da Sé Velha, junto às escadas que dão acesso à antiga Faculdade de Farmácia.
Há data, um grupo de católicos conimbricenses relacionados com a Associação Cristã de Empresários e Gestores, liderados pelo saudoso monsenhor João Evangelista, Pároco da Sé Velha e secundados pelo Professor Doutor Jorge Paiva, tiveram o propósito de criar nos claustros dessa bela igreja, um Jardim Bíblico, rematando-o no exterior com uma Oliveira milenar.
Selecionada e arrancada a Oliveira à serra que a viu nascer e crescer durante centenas de anos, foi esta transportada até onde as ruas da cidade de Coimbra podiam albergar as suas dimensões e as do camião que a transportava. Tal era o porte da árvore que logo se verificou que não entraria nas pequenas ruas que dão acesso à Igreja da Sé Velha.
Alguns ramos podados depois, seguido de uma mudança para um transporte mais adequado a essas ruas, verificou-se que a Oliveira era ainda demasiada grande e o seu peso não era o adequado ao transporte possível.
Não há hipótese, afiançavam uns. Só de helicóptero, gracejavam outros.
Não, nada disso! Para lá chegar, alguém disse, só há uma forma, corta-se a árvore ao meio longitudinalmente.
E assim se fez. Cortou-se longitudinalmente a Oliveira, carregou-se uma das partes no transporte que a havia de levar à Sé Velha e parecia que assim lá iria chegar. Só que não, logo mais à frente num troço mais estreito de uma rua já estreita, voltaram a desassossegar-se as hostes.
Bom, se a Oliveira já foi cortada longitudinalmente em duas volta-se a cortar cada parte em duas. E assim se fez e, assim se conseguiu fazer chegar, após quatro viagens, a Oliveira milenar cortada longitudinalmente em quatro, ao espaço exterior junto á Sé Velha.
Chegada a hora da sua replantação juntaram-se as quatros partes numa só, abraçando-as com várias cintas. Posteriormente a mesma foi regada abundantemente, durante vários dias consecutivos.
Quinze anos passados a Oliveira milenar da Serra de Sicó, cortada em quatro partes, ainda se encontra nesse espaço, frondosa e bem desenvolvida, como pode verificar quem por lá passa e que agora fica a saber a história do seu transplante que, ao ser cortada em quatro não quis morrer, antes desejou renascer junto ao Templo que a acolheu, para aí, como disse à época o monsenhor João Evangelista “simbolizar as oliveiras de Jerusalém referenciadas nos textos sagrados”.
Esta história só fica completa se se referir que parte da equipa que procedeu ao transplante era composta por quatro reclusos do Estabelecimento Prisional de Coimbra que ao abrigo de um Protocolo entre a Câmara Municipal de Coimbra e o Ministério da Justiça, prestavam serviço, em final de pena, nos Serviços Urbanos de Higiene.
Ele há coisas…!


