Opinião: Deus está com as vítimas
O tema dos abusos no âmbito da Igreja continua a ser uma dolorosa ferida por sarar. Aqui o benefício da dúvida deve estar, antes de mais, nas vítimas. É com elas que a Igreja tem de estar em primeiro lugar. Não tenho dúvidas que Deus está com as vítimas.
Se hoje estamos a discutir este tema é porque houve abusos de menores por membros do clero e de outros agentes da pastoral. Abusos que não podemos comparar aos que acontecem no âmbito da família, da escola ou mesmo da sociedade. Espera-se da Igreja e dos seus membros mais. Espera-se cuidado e não abuso.
Importa recordar que foi a Conferência Episcopal Portuguesa, na pessoa do seu presidente, que tomou a iniciativa de convocar uma Comissão Independente para escutar e indicar caminhos de ação. Já antes, todas as dioceses, tinham implementado uma comissão de proteção de menores e pessoas vulneráveis, de acordo com as orientações do Papa Francisco que pede ‘tolerância zero’.
Quanto à Comissão Independente devemos distinguir dois momentos. Num primeiro momento fez um excelente trabalho, dentro das circunstâncias e possibilidades. Escutou e deu voz às vítimas para expressarem a sua dor e contarem um pouco do seu sofrimento. Fez ainda um trabalho de análise de vários casos que estariam nos arquivos secretos das dioceses.
Contudo, num segundo momento, quando se tratou da divulgação dos números e os respetivos enquadramentos houve falhas que precisam de ser assumidas e pouco rigor científico. Falou-se em 100 abusadores de menores vivos, quando se veio a verificar que cerca de 40 estariam mortos, alguns casos tinham sido julgados e arquivados por falta de provas, outros diziam respeito a pessoas maiores de idade, noutros eram denúncias totalmente anónimas e noutros havia apenas um nome próprio.
Dos 7 casos da diocese de Coimbra, nestes últimos 70 anos: 5 já morreram, 1 tem a ver com um adulto e foi arquivado por falta de matéria que configurasse abuso, outro não tem matéria de abuso. No entanto, bastava uma pessoa abusada para estarmos preocupados. E não tenho dúvidas que algumas pessoas ao longo destes anos sofreram abusos.
Também sou filho, tenho irmãos, sobrinhos, afilhados e não consigo imaginar como é que alguém pode abusar de uma criança ou de um menor. São vidas estragadas para sempre. Não imagino o que um pai ou uma mãe sentem quando descobrem que os seus filhos são vítimas, nem imagino como é que uma criança consegue ‘sobreviver’ a um abuso.
Deus escolheu o lado das vítimas. Escolheu, como sempre o lado dos mais frágeis que precisam de ser cuidados e ajudados. Como é que podemos ser ajuda para as vítimas? Reforçando o espaço da escuta; apelando às vítimas que tenham coragem de denunciar; valorizando o papel das Comissões Diocesanas constituídas por psicólogos, juristas, leigos…; criando uma ‘consulta’ de acompanhamento com médicos psiquiatras, psicólogos e leigos; acompanhando os agressores e abusadores para que sejam ajudados a não cometerem os mesmos atos.
É importante pedir desculpa e perdão, mas não basta. Temos de tomar medidas concretas, fazer formação, revelar o melhor do cuidado. O bom trabalho da Igreja tem de ser valorizado e conhecido, há muitos padres e agentes da pastoral competentes e de total confiança, há muita vontade de ‘erradicar’ este mal da Igreja com a implementação efetiva de programas nas dioceses.
Que uma vez mais a Igreja possa ser estímulo para a sociedade para que nas nossas escolas, no desporto, nas famílias não se cometam tais atos. O Papa Francisco e, sobretudo, Jesus Cristo são a nossa referência e a nossa esperança.


