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Opinião: Dignidade e trabalho

19 de às 11h24
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Os ecos que vão chegando do outro lado do Atlântico apontam para um número de demissões voluntárias sem precedentes, num fenómeno que tem sido apelidado de the great resignation. A persistência de um mercado de trabalho com escassez de mão de obra, aliada à aparente reconfiguração de valores, com maior enfoque na qualidade de vida, colocam hoje novos desafios que devemos saber ler também por cá.
A degradação persistente das condições laborais ao longo de anos sucessivos aliada a uma política de baixos salários, herdeira de uma visão austeritária da gestão, parecem ter criado um exército de descontentes, esmagados pela ausência de tempo para a realização pessoal e familiar.
De facto, cada vez mais parece questionar-se qual o real significado de sucesso profissional e, em larga medida, qual o fim último da supressão das dinâmicas sociais e pessoais em detrimento de uma carreira profissional.
Parece hoje certo que o futuro da competitividade laboral dos empregadores terá que tender, cada vez mais, para a correção das práticas continuadas de exploração e degradação da vida dos trabalhadores.
Não deixa de ser sintomática a distorção das reais condições de trabalho. Porque se por um lado existe uma tendência crescente de atribuição de benefícios aos trabalhadores – como seguros de saúde ou mensalidades de ginásios – a verdade é que o número crescente de problemas de saúde e esgotamentos em fase muito jovem apontam para o maquilhar de situações de profunda exploração.
Reconheçamos que nem todos os trabalhadores, nem todos os sectores estarão igualmente expostos a este fenómeno e que, também aqui, se verificarão assimetrias de naturezas várias. Mas negar que o caminho da modernidade se faz do respeito pela dignidade laboral seria destruir a centelha de esperança que é sempre o motor da mudança.
Também ao Estado importa refletir sobre a qualidade do emprego que oferece e sobre as condições de atratividade para a captação e retenção dos seus trabalhadores.
Tem-se reduzido a agenda sindical da função pública a questões estritamente corporativas, mas importa reconhecer-se que esta é uma questão de absoluta centralidade para a qualidade – e existência – de serviços públicos de qualidade que possam servir dignamente a população.
Mesmo com o esforço que tem sido feito nos últimos anos, as carreiras públicas têm vindo a perder atratividade real em termos remuneratórios – fundamentalmente para os trabalhadores mais qualificados – e alguns dos seus setores, como o da saúde, são hoje totalmente dependentes das – infindáveis – horas extraordinárias.
A isto somemos o aumento dos custos de vida nas áreas metropolitanas onde, desde sempre, o Estado foi centralizando um elevado número dos seus serviços. Tudo isto contribui e agudiza a redução da atratividade dos empregos públicos e, como tal, também da própria capacidade de resposta do Estado.
O que é novo nesta realidade é o facto de se ensaiar uma tendência em que a reação dos trabalhadores em diversos sectores parecer migrar da conflitualidade pura para o desligamento de empregos que não cumprem o equilíbrio entre compromisso pessoal e estatuto remuneratório.
Em semana de debate do Estado da Nação e aberta a discussão sobre a Agenda do Trabalho Digno, importa recentrarmos a discussão sobre o papel das relações laborais no nosso país. Sem entendermos o que está a mudar dificilmente seremos capazes de

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