Opinião: Dimensão internacional
Daqui a três anos, celebraremos 40 anos da entrada de Portugal na União Europeia, então CEE. Pertenço a uma geração que beneficiou em grande medida desta integração, desde o impacto transformador das políticas e fundos estruturais, a iniciativas como o programa Erasmus. Afirmo-o repetidamente, pois considero-me verdadeiramente Europeu.
Esta visão identitária não invalida a dimensão importante da nacionalidade, mas é, quiçá, conflituante com alguns valores mais tradicionalistas, que entendo no conjunto diverso que é a nossa sociedade. Quaisquer dúvidas dissipam-se rapidamente quando olhamos para a economia e os negócios. A internacionalização e integração no “bloco” europeu foi chave para o crescimento. A integração no contexto da U.E., com a criação do mercado único, permitiu-nos fazer parte do maior espaço económico sem barreiras do mundo. Este espaço inclui quase 450 milhões de cidadãos com um produto interno bruto de cerca de 14,5 biliões de euros. Estima-se que o mercado único tenha criado 2,8 milhões de postos de trabalho.
A reflexão que deixou hoje prende-se com a expetativa, estratégia e ambição que temos para a dimensão internacional do nosso país.
A notícia sobre a atribuição da organização conjunto do Campeonato do Mundo de Futebol de 2030, deixa um travo agridoce. Se por um lado este tipo de eventos são oportunidade de visibilidade, por outro, a ânsia de receber eventos desportivos impede de refletir sobre outas opções estratégicas.
Nomeadamente ao nível económico, a crise financeira, a pandemia e as hesitações políticas têm-nos deixado cada vez mais “presos” ao turismo: somos a 3ª economia mais dependente deste setor, atrás da Croácia e da Grécia. Certamente que o turismo continuará a oferecer oportunidades, e a promover a recuperação do nosso património. Mas como atividade de menor valor acrescentado, não pode ser a base da nossa economia e ainda acarreta um risco sistémico: é muito vulnerável a fenómenos de moda, de preço, de perturbações sociais, de terrorismo ou alterações ambientais.
A própria União Europeia deu já o sinal com orçamento de longo prazo 2021-27, onde de um total de 1,8 biliões de euros, mais de 50 % do montante serão destinados a apoiar a modernização através de programas como o Horizonte Europa, o Fundo para uma Transição Justa e o Programa Europa Digital.
Esta é uma oportunidade que a Europa nos estende para tirar partido do melhor que temos: empresas, universidades e politécnicos, centros de investigação, clusters e associações sectoriais.
Reforço a mensagem em crónicas anteriores que apelavam à cooperação: Portugal, em particular a Região Centro, tem nas suas mãos os recursos, o conhecimento e o engenho para se transformar numa economia mais sustentável, digital e resiliente. No âmbito do Portugal2030 estão finalmente abertas as candidaturas aos Sistemas de incentivos para apoio à inovação produtiva; internacionalização; investigação e desenvolvimento tecnológico (SI I&DT). Em particular os incentivos à cooperação empresas/academia no âmbito do SI ID&T devem ser encarados como a oportunidade de mobilizar o esforço coletivo para imaginar e construir um futuro sustentável em torno das atividades e dos setores do futuro.
Este é um momento importante de assumir uma dimensão internacional. Encarar esta oportunidade para ser ambicioso, inovador e trilhar novos caminhos. Novos caminhos que em vez de nos levaram às índias, nos levem aos novos modos de vida, situados na encruzilhada atual entre a sustentabilidade, a cultura, a ciência e a tecnologia.


