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Opinião – Entre a emoção e o racional

01 de às 13h48
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A morte de Isabel II fez com que as televisões impusessem ao mundo um modelo de noticiário exagerado e saturante, que alguns aceitam por eventualmente ter a intenção de satisfazer um povo devoto à sua Rainha, uma Rainha que morreu aos 96 anos, depois de reinar durante 70 anos, mas que outros remetem para a contabilização dos “tempos de audiência” mundial.
Não irei referir-me, nem sequer tecer qualquer comentário político ao regime monárquico. Apenas me concentrarei na monarca e na mulher que foi Isabel II, de quem o Mundo se despediu pela última vez com 96 badaladas, mais de 100 voos cancelados, 2.000 convidados especiais, um velório com milhares de pessoas a aguardar dezenas de horas na fila para dizerem adeus à sua monarca. Um cerimonial e uma operação de segurança das maiores de sempre, com o Mundo quase parado por um modelo de noticiário, repetitivo e cansativo, de transmissão das cerimónias fúnebres, com um caixão a desfilar durante horas nas ruas, de castelos para catedrais e de catedrais para castelos, esgotando a capacidade de descrição aos respectivos comentadores.
Entre esse tempo emocional e o racional existe sempre um espaço infinito para o mundo humano, sempre capaz de misturar lágrimas com pedras, ramos de flores com ídolos e paixões com desconcertos. Mas a emoção e a razão são dois paradigmas existenciais.
Temos todos de reconhecer que a Rainha Isabel II foi uma personalidade de valor extraordinário, quer pela sua serenidade, quer pelo comportamento cúmplice com essa serenidade, sem perder razão na maneira como atravessava o desconcerto do mundo. Exerceu com dignidade e verticalidade o seu reinado, sabendo muito bem conjugar os tumultos emocionais e racionais.
Citarei alguns, poucos, dos muitos que haveria para citar.
Assumiu o trono quando o Reino-Unido tentava sarar as cicatrizes da Segunda Guerra Mundial, assistindo ao início de um mundo bipolar entre os Estados Unidos e a União Soviética, para, anos depois, assistir à Queda do Muro de Berlim e ao fim dessa Guerra-Fria. Assistiu à entrada do Reino-Unido na União Europeia e à sua saída do projecto Europeu. Assistiu ao início do conflito armado na Ucrânia.
Ao longo de setenta anos conheceu 14 presidentes norte-americanos, 16 primeiros ministros britânicos, desde Churchill a Liz Truss (a quem deu posse dois dias antes de morrer), 7 papas… e 9 presidentes portugueses.
Foi uma representante activa da sua Nação perante o Mundo e a Commonwealth, comunidade britânica composta por 56 países hoje independentes, mas que fizeram parte do Império Britânico. Foi extraordinária a forma como a Rainha lidou com essa separação e a capacidade de conservar, através da Commonwealth, todas as relações de proximidade e, talvez até mais importante, conservar o seu inter-relacionamento, a sua cultura e a mesma língua. Durante toda a vida da Rainha, o desmoronar desse Império Britânico nunca beliscou os acordos nem a alma desses povos. É que Isabel II nunca aspirou à liderança de mudanças, optando sempre por não criar muros e facilitar o caminho nas estradas.
E, para mim ainda mais definidor da sua personalidade, não posso deixar de dar relevo à visita histórica de reconciliação que fez à República da Irlanda, sendo a primeira vez que um monarca britânico o fez desde a independência em 1922, onde expressou compaixão pelas vítimas de uma história comum. Como não posso deixar de salientar a reputação de devoção familiar sóbria, o que permitiu distanciar alguns dos problemas familiares por que passou (casos da irmã, Princesa Margarida, caso de Diana Spencer, as polémicas de Harry e Meghan, e ainda outras situações mais gravosas). Desaires de comportamentos de família que, como acontece com todas as famílias, tem vícios e virtudes humanas.
Concluo referindo que não é preciso apoiar um regime para ter a lucidez da inteligência e a força de quem está à frente dele e saber que, acima de tudo, é sempre um ser humano que está em causa no desempenho. E Isabel II teve essa lucidez. A lucidez de saber que a alternidade infinita do Outro emancipa as relações de força e dos constrangimentos que muitas vezes emperram um conceito histórico.

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