Opinião: Espírito de Missão
Uma equipa de cirurgiões, enfermeiros e técnicos do serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), por mim coordenada, viajou há 4 semanas para Maputo, Moçambique, onde realizou uma missão humanitária destinada a operar doentes com doenças de coração. Foram maioritariamente crianças e adolescentes com doenças cardíacas reumáticas, uma patologia hoje rara nos países desenvolvidos do hemisfério Norte, infelizmente, ainda muito comum, mesmo endémica, nas nações em desenvolvimento do hemisfério Sul.
Esta foi a 22ª missão anual desta equipa desde que o Instituto do Coração foi criado em Maputo, com o apoio e financiamento das Cadeias da Esperança de Portugal, de França e do Reino Unido, que também ali realizam missões regulares do mesmo género. Durante as anteriores missões da equipa portuguesa foram operados mais de 350 doentes, com um grau de sucesso comparável ao da casa-mãe em Coimbra. Desta vez, foram 16 os doentes que beneficiaram das cirurgias, todas com sucesso.
O que é que faz com que os elementos desta equipa persistam, por duas décadas, neste tipo de atividade, numa região do mundo distante mais de dez mil quilómetros de suas casas e das suas famílias? Ainda há uns dois meses atrás, tínhamos estado em Amã, na Jordânia, a operar bebés e crianças refugiadas sírias. Porquê? Em primeiro lugar, pelo espírito de missão, de ajuda a quem, de outro modo, não teria acesso a este tipo de tratamento e que, portanto, não sobreviria a curto prazo. Mas não é apenas puro ‘altruísmo’. Este gesto não faz apenas bem aos outros, satisfaz-nos a nós próprios, à nossa alma ou, se preferirem, ao nosso próprio coração.
Foi por isso, que nos convites que, de cada vez, fiz individualmente aos profissionais que integraram estas duas dezenas de missões, com alguma variabilidade entre cada uma, nunca recebi outra resposta que não fosse um SIM imediato e convincente. Nos últimos anos, estas missões foram efetuadas em regime oficial de serviço, apoiado pelas instituições hospitalares em que trabalhamos, mas anteriormente eram efetuadas no tempo de férias de cada um.
Mas não se trata apenas de operar mais uns quantos doentes. Desde o princípio que se instituiu também a missão de ensino dos profissionais locais. De facto, sempre esteve na nossa mente e na das outras equipas congéneres o objetivo de criar no Instituto uma equipe que pudesse realizar, autonomamente, este tipo de cirurgias altamente tecnológicas e sofisticadas. E esse objetivo foi conseguido há uma meia dúzia de anos. Pela primeira vez, num país da áfrica subsaariana, onde um sem número de organizações realizam centenas de missões semelhantes todos os anos.
Hoje, a equipa do Instituto do Coração de Maputo realiza mais cirurgias que a totalidade das três ou quatro missões estrangeiras que ali se realizam anualmente. Este facto contribuiu, também, para que o Instituto se transformasse numa das unidades de saúde mais prestigiadas da capital moçambicana o que, naturalmente, nos enche de orgulho. O core da sua atividade continuam a ser os doentes cardíacos, mas o Instituto cobre hoje todas as áreas mais importantes da assistência médica, com um atendimento anual de mais de 78 mil doentes, efetuado por mais de 550 trabalhadores.
Portanto, o trabalho que ali desenvolvemos é feito com a colaboração dos profissionais locais, em verdadeiro espírito de equipe, que também serve para cimentar uma relação pessoal entre povos irmãos. Esta contribuição é amplamente reconhecida pelas autoridades e, naturalmente, pelos próprios doentes, cujos olhares de agradecimento são a maior forma de agradecimento que poderíamos ambicionar.
A Cadeia da Esperança Portugal tem também um posto avançado em São Tomé, onde se fazem regularmente outras missões. Neste caso, trata-se apenas de cardiologia médica; doentes com necessidade de cirurgia cardíaca são regularmente encaminhados para Portugal, onde são atendidos em hospitais públicos, especialmente no CHUC.
Tudo com o mesmo espírito de servir os que precisam. Assim se ajuda na construção de um mundo melhor!


