Opinião: Este mundo não é para pobres
O romance e o filme homónimo dos irmãos Coen, No Country for Old Men, encontram, no descritivo título, uma fulgurante, ainda que sombria, síntese dos tempos que passam.
Não é apenas para os velhos que não existe lugar habitável. Desempregados, colarinhos azuis, refugiados, migrantes, adictos, meninos de rua, prostitutas, sem abrigo – pobres, numa palavra – são apátridas num mundo que apenas concede direitos de real cidadania aos exibicionistas do dinheiro, por mais turva que seja a fonte da glamorosa opulência.
Este país Portugal também não é para pobres.
É para ricos. É, sobretudo, para os hiper-ricos. A quem, generoso, abre fronteiras e concede autorizações de residência e títulos de nacionalidade posto que sejam abastados, muito abastados, abastados o suficiente para tornar ainda mais ricos os nativos irmãos de fortuna, comprando-lhes casas douradas, sociedades douradas, entretenimentos dourados.
E a quem permite vidas douradas, sem impostos e sem o espetáculo deprimente da pobreza dos autóctones, apenas diurnamente tolerados como submissos serviçais low cost e convenientemente despachados, mal a noite cai, para o urbanismo concentracionário das periferias, dos subúrbios, das zonas J e dos quartos de aluguer.
Hiper-ricos a quem, por outro lado, apesar de não pagarem impostos que se vejam – como esfalfada mas inutilmente vêm denunciando Thomas Piketty e Joseph Stiglitz – muito afligem os liliputianos salários dos servos e as liliputianas reformas dos servos.
E que, no intervalo das vernissages, muito se escandalizam – oh horror dos horrores! – com rendimentos mínimos garantidos e demais prestações malfeitoras do abominável Estado Social.
São uns ingratos. Pois fingem esquecer que Estado financia as prestações sociais concedidas aos servos com impostos daqueles privativos. Impostos esses que, em passe de mágica digno de um anti-Robin Hood, são o maná constituinte dos donativos, subsídios, prebendas, rendas e demais subvenções a fundo perdido a que os hiper-ricos têm, ao que consta, merecido direito de natureza quase divina.
Há que corrigir Lampedusa. É preciso que tudo – ou alguma coisa – mude, para que tudo realmente mude.



Nous ne sommes pas tous affiliés au même type de salon.
A alfinetada para ser bem dada deve exemplificar as seguintes propriedades: pertinaz, subtil, pedagógica.
Ora para isso, é preciso não recear convidar o grande elefante vicioso para a nossa húmil sala de estar. Car le gros éléphant est avec le ciel des accommodements.
Et voilà!