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Opinião: Eu noutros

29 de às 11h01
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No restaurante eleva-se o som do telemóvel não importando se incomoda. Na estrada para-se onde dá jeito, não merecendo cuidado se atrapalha ou dificulta. Na loja tira-se tudo do lugar, desarruma-se sem pudor. Em casa faz-se ruído após as horas de repouso dos outros. No autocarro, ou na praia, ou no passadiço, coloca-se música a inebriar o sossego dos outros, a violar o direito de todos ao silêncio. Não importa se incomoda desde que eu fique bem. Aliás, o que importa ? O centro dos outros sou eu e eu sou já a circunstância.
Nesta voracidade dos eus que permanentemente vociferam frases de auto elogio, sentenciam o dever de se colocarem antes de tudo, antes dos outros, afirmam repetidamente a sua confiança, encontramos um mundo de grande aspereza social, onde cada peça do tecido se converte numa independência, numa estrutura que viola as paredes anexas, que galga a fronteira cidadã. Não há agora o outro como entidade que se respeita e preventivamente queremos impedir de ofender ou perturbar.
Não queremos fazer ruído que os acorde. Faço na mesma porque me apetece. Não queremos obrigar as pessoas a ouvir os nossos telemóveis, as conversas, os vídeos do tic toc. Ouvem porque eu quero ruidosamente alegrar-me. O eu que range é invasivo. Os outros podem esperar. Os outros podem sujeitar-se. O eu vaidoso não limpa o que sujou. O eu narcísico não agradece. O egocêntrico não se preocupa com a visão lateral e sobretudo não se incomoda com aquilo que vê. É um ver para dentro. Um egoísmo tão brutal, que não transporta brinquedos para os filhos no restaurante. Não carregam papéis e lápis. A criança brincará com o telemóvel, verá filmes, desde que não os perturbe. Eles perturbarão o mundo mas permanecerão imperturbáveis pelo mundo. Parece um grotesco sketch onde uma menina se penteia despreocupada enquanto caem bombas no prédio ao lado. Morrem crianças e ela mantém-se firme na toilette, compõe sua maquiagem e sorri.
A realidade inovadora deste Dorian Gray imperturbável pela circunstância, pelo envolvimento, condicionado ao retrato onde não cabe nada mais, transporta-nos para uma época diferente que catapulta cada célula a entrar em revolta com as suas congéneres, provocando uma inflamação persistente. É impossível permanecer a delicadeza onde a vida deixa de ser dar e receber. É impossível o amor se ambos estão virados ao espelho.
Os outros é nós é uma configuração que nos transmite decência, simpatia, ajuda gratuita, apoio incondicional na adversidade, respeito. Construímos esta ideia do Japão onde a deferência se sobrepõe. A barbárie do eu primeiro é uma vilania moderna que se liberta da educação permissiva, da instrução obtusa. O eu não é a primazia da vida em sociedade.

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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