Opinião: Exames: sim, não, talvez
Quando a contestação dos professores à política educativa do governo ia no auge, nada como lançar um pouco mais de gasolina na fogueira e atear com um novo motivo de contestação, transformando um tema essencialmente pedagógico numa discussão política: “vamos abolir os exames”- disse o ministério da Educação. Não vamos- disse o ministério do Ensino Superior. Talvez, terá pensado um qualquer outro membro do governo.
Não creio que valesse a pena criar mais pontos de discórdia, considerando que o que está em jogo na luta dos professores é demasiado importante para que outras matérias se interponham no momento que atravessamos.
A visão diferenciada que ministério da Educação e ministério do Ensino Superior mostraram, não ajuda a dar confiança a um país que se debate num labirinto de que está com dificuldade em sair. Para reforçar o disparate, quem anunciou a decisão final foi o Presidente da República e só uma hora depois o governo veio a terreiro. Tem razão o presidente da Câmara do Porto, quando diz que o Presidente fala em demasia e nem sempre bem…
Há uns bons anos (não tantos assim, diga-se), o sistema educativo valorizou a avaliação contínua que considera que os alunos são avaliados sempre e não apenas no fim de cada trimestre ou de cada semestre. Verdade seja dita que os professores não lhe deram a importância que ela deve ter, continuando a sua aposta essencialmente na nota final de cada período que lhes permitia e permite distinguirem os alunos uns dos outros e premiando os que melhores resultados tiveram em testes espalhados ao longo do ano. Claro que a aprendizagem e a avaliação contínua permitem aos alunos evitarem as angústias que todos conhecemos em época de notas ou de exames e saberem que a sua avaliação reside naquilo que foram fazendo ao longo do ano e não se joga em provas de uma hora ou hora e meia.
Então para que servem os exames? Para lá de avaliarem os alunos servem para avaliar o estado em que se encontra o sistema educativo.
Sigo o Professor Doutor Domingos Fernandes: “A avaliação deve estar fundamentalmente orientada para ajudar os alunos a aprender e a melhorar o que sabem e são capazes de fazer num contexto de paradigmas emergentes quer ao nível do currículo, quer ao nível das aprendizagens; neste sentido, deve ter um papel primordial no desenvolvimento dos processos mais complexos de pensamento dos alunos”.
A investigação realizada ao longo das últimas décadas mostra que a avaliação, nomeadamente a avaliação formativa, serve bem para melhorar as avaliações dos alunos com mais dificuldades. O que é preciso é que eles interiorizem esta realidade e sejam capazes de refletir sobre aquilo que a avaliação lhes diz. Quero realçar que a avaliação não avalia os professores, mas sim os alunos.
Os famosos “ranking” são, assim, perversos quando se pretende daí extrair qual a melhor escola e qual a que tem melhores professores.
Não entendo com que objetivo se embrulharam os exames no momento importante a luta dos professores, quando se deseja verdadeiramente que haja acordos que reconduzam o ano escolar à maior normalidade possível.
O ministro da Educação é um prestigiado professor universitário e o seu secretário de Estado um não menos prestigiado docente do ensino secundário. Tenho para mim que estão nitidamente enredados nas “contas certas” que Medina, sem grande sensibilidade social, impõe aos seus colegas de governo e que começam a tornar irrespirável o clima que se já se vive no país.
Volto aos exames. O que espero é que, pouco a pouco, se vá perdendo o hábito maléfico de preparar os alunos para os exames (em escolas privadas e públicas) e se passem a lecionar os conteúdos programáticos que são o que verdadeiramente faz crescer os jovens enquanto seres humanos preparados para a vida que têm à sua frente. Vejo agora que há algum consenso sobre os pesos que devem ter os exames no apuramento da nota final dos alunos, seja para concluírem o ensino secundário, seja para acederem ao ensino superior. Recente reunião em Coimbra trouxe esta boa nova. Não sendo um entusiasta dos exames, admito que ainda têm de fazer um caminho até àquilo que entendo como uma avaliação dos tempos que passam. E volto a Domingos Fernandes. As autoridades educativas devem credibilizar e valorizar “uma avaliação interna de natureza eminentemente formativa e que promovam a sua adequada articulação com uma avaliação externa que pode e deve ter o seu papel nos sistemas educativos”. Pode e deve, realço.
Ainda espero ter vida para ver isso.


