Opinião: Forever Young
Forever Young, singular êxito pop dos Alphaville, retrata, em tom festivo tocado por uma nota de melancolia, a mais subterrânea das angústias humanas: o medo de envelhecer (outro modo de dizer o medo de morrer).
A literatura dá-nos longo registo desta angústia. “ Não me venham falar da sabedoria dos velhos, mas da sua loucura. Do seu medo”, diz T.S. Eliot em Quatro Quartetos. É o pavor do declínio físico que leva Dorian Gray à celebração de um pacto demoníaco, letal como todos os acordos faustianos.
O fascínio suicida de Aschenbach pela deslumbrante beleza do adolescente Tadzio, em Morte em Veneza, mais que uma pulsão homoerótica, significa o ensaio de uma fuga da morte. Ensaio sempre falhado, como Dom Fabrizio, Príncipe de Salina, em O Leopardo, bem soube, pelas seis da manhã, saído do baile, regressando a pé, o corpo e o destino marcados pelo valsar com a vitalidade sensual da jovem Angelica.
É muito antiga a busca pelo elixir da eterna juventude. Não espanta que, nos presentes tempos, tal busca tenha adotado formas adequadas a uma mundivisão individualista e consumista. Daí a corrida aos ginásios, ao desporto chic – em semânticas anglicizadas ( running, trail, cycle…) mais devoradoras de calorias, ao que consta -, à alimentação saudável, à dermocosmética, à perfeição plástica.
E, no entanto, o tempo continua a passar. E continuamos a passar pelo tempo. Mesmo a Cher.
Não é fácil envelhecer numa sociedade dominada pelo culto da beleza e da juventude. Não é fácil ser velho, ser mais velho, num mundo económico regido por imperativos de rendimento, de produtividade e de performance. Nessa sociedade e neste mundo os velhos, os mais velhos, são, de modo expresso ou implícito, rotulados como obsolescências humanas, como ónus para o erário público, como fardo social.
O fascismo tem muitos modos de regressar e de se reinventar. Assistimos, neste início de século, nas democracias capitalistas servas dos dogmas da eficiência dos mercados, a um ressuscitar de eugenismos antigos. Mascarados, como é mister, de piedosas intenções. Trasladadas em programas paternalistas, procedimentos tutelares e processos infantilizantes.
Triste destino o do ser sénior massacrado com programas de envelhecimento ativo. Com um único direito fundamental: o de morrer o mais depressa e o mais invisivelmente possível, para maior glória da sustentabilidade financeira da segurança social.
Partiu esta semana, com 89 anos, Cormac McCarthy, autor do inesquecível título No Country for Old Men.
Sabia que o tempo e o valor da vida não se contam pelo andar dos ponteiros do relógio. Sabia que envelhecer é buscar continuamente, como Kane, o Rosebud da infância. Sabia que Ulisses, muitos anos depois, não deixaria de reencontrar Penélope, muito tempo adiante.
E sabia, também, como António Osório, que “pesadelo era a eternidade”.


